Ciência, tecnologia e comunidades criam novo modelo para recuperar manguezais no RJ

O Brasil reúne uma das maiores extensões de manguezais do planeta, ecossistemas estratégicos para a biodiversidade, a pesca artesanal e o equilíbrio climático. Nesse cenário, o projeto MangueLab aposta na integração entre ciência, inovação tecnológica e conhecimento tradicional para desenvolver um novo modelo de restauração ambiental, capaz de recuperar 14 hectares de manguezais na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim, em Magé, RJ. Desenvolvida pela OceanPact em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e comunidades quilombolas, a iniciativa também pretende estabelecer um protocolo técnico de restauração e monitoramento que possa ser replicado em diferentes regiões do Brasil e até em outros países.

Com investimentos estimados em R$ 20 milhões e execução prevista entre agosto de 2024 e meados de 2027, o MangueLab representa um dos mais abrangentes projetos brasileiros de Pesquisa & Desenvolvimento voltados aos ecossistemas costeiros. A iniciativa reúne especialistas de diversas áreas para desenvolver metodologias que elevem a eficiência da recuperação ambiental e ampliem a confiabilidade da mensuração dos estoques de carbono azul, ativo ambiental cada vez mais valorizado nos mercados internacionais. Embora o projeto piloto não contemple a comercialização desses créditos, sua estrutura científica busca criar referências técnicas capazes de ampliar futuras oportunidades econômicas associadas à conservação dos manguezais.

Drone de carga com capacidade para transportar 30 quilos de mudas, amplia eficiência no transporte. Projeto une pesquisa, drones e conhecimento tradicional para restaurar manguezais e ampliar serviços ambientais
Drone de carga com capacidade para transportar 30 quilos
de mudas, amplia eficiência no transporte. Projeto une
pesquisa, drones e conhecimento tradicional para restaurar
manguezais e ampliar serviços ambientais
Área degradada começa a recuperar biodiversidade após as intervenções
Área degradada começa a recuperar biodiversidade após as intervenções

A pesquisa combina biotecnologia microbiana, aceleradores biológicos, análises de diversidade genética, sensores inteligentes, drones, robótica e sistemas digitais de monitoramento para superar alguns dos principais desafios operacionais da restauração desses ambientes. O objetivo é reduzir limitações de acesso, aumentar a segurança das equipes em campo e produzir informações que permitam selecionar áreas mais adequadas para coleta de mudas e implantação de novos plantios. O conhecimento acumulado pelas comunidades locais integra todas as etapas da pesquisa, demonstrando que soluções tecnológicas alcançam melhores resultados quando desenvolvidas em conjunto com quem conhece profundamente o funcionamento do ecossistema.

O experimento também permitirá comparar diferentes estratégias de restauração. Em metade da área, o plantio ocorre pelo método convencional, realizado pelos próprios quilombolas, que transportam manualmente as mudas enfrentando lama, variações de maré e intensa presença de insetos. Na outra metade, um drone de carga com capacidade para transportar até 30 quilos de mudas executará parte da operação, acompanhado por drones de monitoramento e aplicativos que registrarão indicadores ambientais em tempo real. A comparação entre os sistemas deverá fornecer parâmetros técnicos para estabelecer um protocolo padronizado, escalável e aplicável a diferentes realidades ambientais.

Pesquisa desenvolve protocolo inovador para restaurar manguezais com escala e alta integridade ambiental e plantio convencional será comparado ao sistema assistido por tecnologia
Pesquisa desenvolve protocolo inovador para restaurar
manguezais com escala e alta integridade ambiental e plantio
convencional será comparado ao sistema assistido por tecnologia
Tecnologia e conhecimento tradicional criam novo modelo para recuperação de manguezais e carbono azul com quilombolas participando diretamente da recuperação dos manguezais em Magé
Tecnologia e conhecimento tradicional criam novo modelo para
recuperação de manguezais e carbono azul com quilombolas
participando diretamente da recuperação dos manguezais em Magé

Além da dimensão científica, o MangueLab incorpora uma importante estratégia de desenvolvimento socioeconômico. Moradores do Quilombo do Feital participam diretamente das atividades de campo, recebem capacitação técnica, remuneração e apoio alimentar, criando novas perspectivas de geração de renda associadas à conservação ambiental. O projeto também capacita 30 integrantes das comunidades para a criação de abelhas sem ferrão, atividade que poderá diversificar as fontes de receita familiar e contribuir para a polinização da vegetação nativa, ampliando a capacidade natural de regeneração do manguezal.

Os primeiros resultados já são percebidos pela comunidade. Segundo Valdirene Couto, conhecida como Val Quilombola, representante da quinta geração de catadores de caranguejo da família e coordenadora comunitária do projeto, áreas antes dominadas por samambaias começam a apresentar novamente tocas de caranguejos poucos meses após o início das intervenções. A recuperação desse ambiente simboliza não apenas o retorno gradual da biodiversidade, mas também a possibilidade de reconstrução da atividade tradicional que sustentou diversas famílias ao longo das décadas. Outro aspecto relevante é a prioridade dada à participação feminina nas equipes de campo, ampliando oportunidades de qualificação profissional e permanência das mulheres em suas comunidades por meio de empregos vinculados à economia ambiental.

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