Espécie venenosa avança pela costa baiana, ameaça recifes e pesca, ganha plano com captura remunerada e aproveitamento da carne como alimento
Poucas espécies resumem tão bem a complexidade de uma invasão biológica quanto o peixe-leão (Pterois volitans). Originário do Indo-Pacífico, o predador de listras chamativas chegou ao Atlântico por ação humana e encontrou na costa brasileira um ambiente sem predadores naturais e com alimento abundante. O resultado foi uma expansão veloz, registrada atualmente em pelo menos 18 áreas marinhas protegidas ao longo de cerca de 4 mil quilômetros do litoral, segundo estudos publicados em periódicos científicos internacionais.
Agora o problema ganhou proporções concretas na Bahia. Em Porto Seguro, no extremo sul do estado, quase 500 exemplares foram retirados do mar em apenas um mês, em uma ação coordenada pela prefeitura, que passou a pagar R$ 10 por exemplar capturado por pescadores participantes. O avanço também foi detectado em Salvador, onde animais recolhidos na região da Barra foram encaminhados a universidades para pesquisas, e em pelo menos outros dez municípios baianos, segundo levantamentos recentes.
A ameaça, porém, não se limita à biodiversidade. O peixe-leão altera a cadeia alimentar dos recifes, competindo com espécies nativas que sustentam a pesca artesanal e o turismo de mergulho, duas atividades centrais para a economia litorânea baiana. Por isso, pesquisadores, órgãos ambientais e comunidades pesqueiras passaram a discutir estratégias regionais de manejo, cientes de que a contenção de uma espécie invasora exige mais do que medidas pontuais e depende de um esforço coordenado, contínuo e bem articulado.

multiplica rápido e altera a cadeia alimentar dos recifes,
exigindo captura segura e manejo permanente

revela o avanço do peixe-leão no maior complexo
coralíneo do Atlântico Sul, acende alerta para a
biodiversidade marinha e a pesca artesanal na Bahia
Os 18 espinhos de um predador voraz
O controle do peixe-leão começa por uma realidade pouco conhecida: o animal carrega 18 espinhos venenosos, capazes de inocular toxinas que provocam dor intensa e, em casos mais graves, exigem atendimento médico imediato. A captura e a manipulação, portanto, não podem ser improvisadas. Exigem capacitação, equipamentos de proteção e técnicas apropriadas, o que transforma o manejo em um desafio operacional permanente para pescadores, mergulhadores, agentes públicos e instituições de pesquisa que atuam na proteção das comunidades que vivem do mar.
Na prática, o protocolo recomendado envolve três etapas: identificação correta da espécie, captura segura e destinação adequada do animal. Quando o peixe-leão aparece acidentalmente em redes, covos ou linhas de mão, a orientação é evitar qualquer contato com os espinhos, que permanecem venenosos mesmo depois da morte, e procurar os órgãos ambientais. Durante mergulhos, a recomendação é ainda mais enfática: nunca tentar capturar o animal sem treinamento, pois o risco de acidente cresce justamente quando alguém sem preparo decide improvisar.
O cuidado não é exagero. Registros recentes mostram pescadores feridos em diferentes pontos do litoral brasileiro após contato com a espécie, e o número de ocorrências tende a crescer na mesma proporção da expansão do peixe. A capacitação, nesse sentido, deixa de ser apenas uma medida de segurança e passa a integrar a própria estratégia de controle: quanto mais gente preparada para reconhecer, capturar e destinar adequadamente o animal, mais eficiente tende a ser a resposta local à invasão.

Causa Animal – Semac e a Colônia de Pescadores de Porto
Seguro Z-22 resultou na captura de cerca de 500 exemplares
de peixe-leão em aproximadamente um mês – Foto: Semac

ingredientes baianos ganha a mesa, aposta
gastronômica no controle da espécie invasora
Carne, pele e uma nova renda para as comunidades do mar
Foi nesse contexto que surgiu a aposta mais ousada: transformar a ameaça em alimento. Pesquisadores e comunidades pesqueiras baianas avaliam o aproveitamento da carne do peixe-leão como ferramenta complementar de controle, em um caminho que outros países já testaram com resultados promissores. Panamá e Bahamas, por exemplo, abriram espaço para o peixe em cardápios e mercados, ajudando a retirar milhares de exemplares do oceano ao criar demanda econômica pela captura. A experiência internacional, aliás, serve de referência para desenhar a rota brasileira.
No sul da Bahia, a ideia ganhou forma concreta. A Colônia de Pesca Z-08, no município de Vera Cruz, na Ilha de Itaparica, manifestou interesse no beneficiamento da carne e no uso da pele, enquanto chefs da culinária baiana participam da elaboração de um livro de receitas que inclui pratos como moqueca e outras preparações regionais. Restaurantes, hotéis e quiosques já começam a testar o ingrediente, e a expectativa é que a gastronomia funcione como vitrine para apresentar a carne ao consumidor e vencer a resistência inicial ao novo prato.
O raciocínio econômico é direto: quando a captura passa a gerar renda, o controle deixa de depender apenas de programas públicos e ganha engajamento espontâneo das comunidades. O desafio, porém, é construir essa cadeia com responsabilidade, garantindo protocolos sanitários, manejo seguro e rastreabilidade. Se conseguir conciliar conservação e mercado, a Bahia pode transformar uma crise ambiental em um experimento de bioeconomia marinha capaz de inspirar o manejo em todo o litoral brasileiro, onde a presença da espécie já é registrada do norte ao sul.