Avanço da raiva dos herbívoros reforça importância da vacinação e da defesa sanitária, mantendo a pecuária brasileira em alerta com atenção redobrada sobre morcegos
A raiva dos herbívoros permanece como um importante desafio sanitário para a pecuária brasileira, especialmente em áreas onde há circulação do vírus e presença do morcego hematófago Desmodus rotundus. No Paraná, levantamento realizado a partir dos informes mensais da Adapar contabilizou 75 animais diagnosticados no primeiro semestre de 2026, sendo 69 bovinos e seis equinos, distribuídos em 57 focos. Em Santa Catarina, foram registrados 27 casos em bovinos no período, abaixo dos 47 de 2025 e dos 67 de 2024. Mesmo com a redução, a doença segue presente em diferentes regiões do Estado.
O Paraná também apresenta pressão sanitária relevante. Em 2025, foram confirmados 230 animais infectados em 197 focos, com predominância de bovinos. A concentração de ocorrências levou o governo estadual a estabelecer, desde março, vacinação obrigatória em 30 municípios do oeste paranaense. No Rio Grande do Sul, havia 45 focos ativos distribuídos por dez regiões segundo informações divulgadas em junho. Ocorrências também foram identificadas em outras partes do País, como Pernambuco, onde um equino de Bezerros teve diagnóstico confirmado em julho, levando à adoção de medidas de vacinação em municípios da área de abrangência.

cavalo. Cena reproduzida com animais empalhados no Museu de
História Natural de Berlim, Alemanha – Foto: Marco A. R. Mello

seus dentes incisivos superiores muito afiados e adaptados
para a alimentação baseada exclusivamente em sangue
Os números estaduais, contudo, precisam ser interpretados com cautela. Caso, foco e foco ativo são conceitos epidemiológicos distintos, e os órgãos de defesa podem trabalhar com períodos e metodologias diferentes. Um caso corresponde ao animal infectado, enquanto foco se refere à propriedade na qual ocorreu pelo menos uma confirmação. O foco ativo pode permanecer nessa condição durante o período de investigação e vigilância. Ainda assim, os registros recentes indicam pressão sanitária relevante em partes da região sul e mostram que a doença exige acompanhamento permanente em outras áreas de produção.
A principal via de transmissão da raiva rural para bovinos, equinos e outros herbívoros está associada ao morcego hematófago Desmodus rotundus, que transmite o vírus principalmente por mordedura durante a alimentação. O Ministério da Agricultura destaca que a estratégia nacional combina vacinação, controle dos transmissores, vigilância epidemiológica e educação sanitária. A dinâmica da doença também está relacionada às alterações ambientais e à disponibilidade de abrigo e alimento para os morcegos. Desmatamentos, mudanças no uso da terra e outras intervenções podem alterar a distribuição desses animais e modificar os padrões de risco.

Esses animais usam a língua dobrada em forma de
tubo para lamberem o sangue até se saciarem

no telhado de uma casa abandonada
Do ponto de vista produtivo, a raiva exige atenção porque não existe tratamento eficaz depois do aparecimento dos sinais clínicos, e a evolução costuma ser fatal. Animais infectados podem apresentar isolamento do grupo, perda de apetite, salivação, alterações de comportamento, dificuldade de locomoção, quedas e paralisia. Para o produtor, a prevenção representa uma decisão sanitária e econômica. A vacinação deve seguir as orientações do serviço veterinário oficial e as regras vigentes em cada estado. Nas áreas de ocorrência, a legislação federal prevê vacinação sistemática de bovídeos e equídeos a partir de três meses, com revacinação dos primovacinados 30 dias depois.
A resposta ao problema, portanto, depende de uma ação integrada entre produtor, serviço veterinário oficial e programas de vigilância sanitária. Animais com sinais neurológicos devem ser isolados, sem manipulação da boca ou da saliva e sem abertura da carcaça. Suspeitas de raiva, mordeduras por morcegos ou presença de abrigos devem ser comunicadas imediatamente às autoridades sanitárias. O e-SISBRAVET permite registrar e acompanhar notificações e investigações realizadas pelo Serviço Veterinário Oficial. O controle de morcegos hematófagos deve ser executado por equipes autorizadas, de maneira seletiva, preservando as demais espécies, que exercem funções relevantes nos ecossistemas.