Novas forrageiras elevam o ganho por hectare em até 20%

O pasto segue como a base da pecuária de corte brasileira, e os números ajudam a dimensionar esse peso. O país mantém 160,5 milhões de hectares de pastagem, dos quais 62,7 milhões estão no Cerrado, e cerca de 80% dos bovinos abatidos no ano passado foram terminados a pasto, segundo dados da Abiec. Nesse cenário, a escolha da forrageira deixou de ser detalhe de manejo para se tornar decisão estratégica de rentabilidade. Dados apresentados pela Embrapa indicam que cultivares modernas podem elevar o ganho econômico por hectare em até 20% frente aos materiais mais antigos, um salto que se traduz em centenas de reais por ano em cada área de pastagem.

Inspeção da forrageira em campo, etapa essencial para escolher cultivares que elevam a produtividade e o retorno da pastagem
Inspeção da forrageira em campo, etapa essencial para escolher
cultivares que elevam a produtividade e o retorno da pastagem

O pasto como tecnologia de ponta

Para os pesquisadores envolvidos no desenvolvimento desses materiais, forrageira e pastagem hoje são tecnologia de ponta, no mesmo nível de uma cultivar de soja ou de um sistema de automação industrial. O problema é que a pecuária brasileira ainda opera, em grande parte, com materiais desenvolvidos entre as décadas de 1970 e 1990, que respondem por cerca de 80% das cultivares em uso no país. A escolha do capim, na maioria das propriedades, continua sendo orientada pelo preço da semente, que representa apenas cerca de 10% do custo total de implantação da pastagem, e não pelo potencial produtivo do material.

A consequência prática desse hábito é uma lacuna de produtividade que o setor ainda não conseguiu fechar. Enquanto a genética animal avança em ritmo acelerado, boa parte das pastagens permanece presa a materiais que limitam o ganho de peso e a taxa de lotação. A atualização do pasto, nesse sentido, aparece como uma das frentes de menor custo relativo e maior retorno imediato dentro da porteira, especialmente para quem busca intensificar a produção sem ampliar a área.

Pesquisa com forrageiras testa resistência a pragas e desempenho na seca, critérios que definem as cultivares recomendadas pela Embrapa
Pesquisa com forrageiras testa resistência a pragas
e desempenho na seca, critérios que definem as
cultivares recomendadas pela Embrapa

As cultivares que a Embrapa recomenda hoje

Em parceria com a Unipasto, a Embrapa desenvolve materiais voltados para resistência a pragas e doenças, melhor disponibilidade de alimento na seca e desempenho mais estável entre as estações do ano. Entre as opções apresentadas estão a BRS Carinás, a BRS Paiaguás, a BRS Zuri, a BRS Tamani, a BRS Sarandi e a BRS Quênia, cada uma indicada para um tipo específico de solo, clima e sistema produtivo.

A BRS Carinás, híbrido de Brachiaria decumbens lançado em abril, evolui a tradicional Basilisk e tolera solo ácido e pobre em fósforo, cobrindo o terreno mais rápido e reduzindo o espaço para plantas invasoras, com 13% a 14% de proteína na forragem e ganho de peso que pode alcançar 13 arrobas por hectare ao ano. Já a BRS Paiaguás, uma Brachiaria brizantha, foi pensada para estender o período de pastejo entre a estação chuvosa e a seca, chegando a apresentar ganho médio diário cerca de 80% superior ao da BRS Piatã na seca, com taxa de lotação aproximadamente 40% maior.

A BRS Zuri e a BRS Tamani, ambas Panicum maximum, são indicadas para sistemas intensivos com pastejo rotacionado, com a primeira respondendo bem à adubação nitrogenada e resistindo a manchas foliares que afetam cultivares antigas como Tanzânia-1 e Mombaça, além de superar o capim Massai em 10% a 15% no ganho médio diário e na lotação. Para áreas de menor fertilidade, pedregosas ou arenosas, a BRS Sarandi, um Andropogon gayanus lançado em 2022, é recomendada em sistemas de cria e recria, ocupando de 20% a 30% da área da propriedade, principalmente nos trechos mais rasos e menos férteis.

Análise de indicadores da pastagem orienta investimentos em forrageiras modernas, com retorno adicional que se repete ano após ano
Análise de indicadores da pastagem orienta
investimentos em forrageiras modernas, com
retorno adicional que se repete ano após ano
O que cada cultivar representa em dinheiro

O que cada cultivar representa em dinheiro

A diferença técnica entre os materiais se traduz em resultado financeiro direto quando cada cultivar moderna é comparada com o capim antigo que substitui. Os números levantados pela Embrapa mostram, por exemplo, que a BRS Quênia supera o capim Mombaça em 17% de desempenho, com retorno adicional de R$ 3.243 por hectare ao ano, enquanto a BRS Sarandi, comparada à BRS Planaltina, entrega ganho de 20% e R$ 1.275 por hectare ao ano. A tabela a seguir resume o potencial de cada material.

Há um detalhe que torna a conta ainda mais atraente: esses valores se repetem todos os anos em que o pasto permanece na propriedade, geralmente entre cinco e seis anos. Ou seja, o ganho de um único ano já costuma cobrir o custo extra da semente, e o restante do período vira lucro adicional. Apesar do potencial disponível, a produtividade média da pecuária nacional está em 67,7 quilos de carcaça por hectare ao ano, e cerca de 76% dos pecuaristas, o equivalente a 1,12 milhão de propriedades, ficam abaixo dessa média.

O caminho para mudar esse quadro passa por decisões simples de manejo e investimento. Se a taxa de desmame subisse de 60% para 80%, o Brasil poderia produzir mais 16,4 milhões de bezerros por ano, e numa fazenda com 100 matrizes isso representaria 20 animais a mais e uma renda adicional estimada em R$ 68 mil. A atualização das forrageiras, somada a práticas de manejo adequadas, coloca a pastagem no centro da estratégia de intensificação da pecuária brasileira, unindo produtividade, eficiência e sustentabilidade em uma única decisão dentro da porteira.

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