Mostras revelam os bastidores da produção científica da instituição e transformam vestígios do incêndio restaurados em reflexão sobre memória e futuro, unindo ciência, arte e patrimônio
O Museu Nacional, uma das mais importantes instituições científicas e culturais do Brasil, celebra seus 208 anos com a abertura de duas exposições inéditas que marcam uma nova etapa de seu processo de reconstrução. Com entrada gratuita, as mostras ocupam seis galerias do histórico Paço de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, edifício que segue em recuperação após o incêndio de setembro de 2018. A iniciativa reforça o compromisso da instituição com a produção de conhecimento, a preservação do patrimônio e a aproximação da sociedade com a ciência, a cultura e a memória nacional.
As novas exposições representam um importante símbolo da capacidade de recuperação do museu. Embora as marcas do incêndio permaneçam visíveis em partes do edifício, elas convivem agora com evidências concretas do avanço das obras e da retomada das atividades públicas. O contraste entre os vestígios da tragédia e os espaços restaurados evidencia a força do projeto de reconstrução, consolidando o Museu Nacional como referência em ciência, educação e preservação patrimonial.



que resistiu às chamas. A pedra, que pesa 5,6 toneladas,
foi achada em 1784 perto de um riacho no interior da
Bahia e levou quase um ano para chegar ao Rio
Distribuídas em diferentes ambientes do palácio, as exposições “Bastidores da Ciência” e “Rescaldo das Memórias” proporcionam experiências complementares. Enquanto uma revela o trabalho técnico e científico desenvolvido diariamente por pesquisadores, restauradores e especialistas, a outra convida o público a refletir sobre memória, perda e reconstrução. Juntas, as mostras demonstram que a instituição permanece ativa e em constante transformação, sustentada pelo esforço de profissionais, parceiros e pela conexão histórica com a sociedade brasileira.
Desenvolvida pelas equipes do museu e pelo Projeto Museu Nacional Vive, a exposição “Bastidores da Ciência” apresenta ao público atividades normalmente restritas aos ambientes técnicos da instituição. Laboratórios, oficinas especializadas, processos de conservação, modelagem digital, paleoarte, taxidermia e ilustração científica são alguns dos temas abordados. A mostra evidencia a complexidade dos trabalhos envolvidos na preservação e interpretação dos acervos, destacando a importância da pesquisa científica, da conservação patrimonial e da inovação tecnológica para a manutenção de um dos maiores museus da América Latina.

produzidos com madeiras recuperadas do incêndio,
o artista Vik Muniz e o reitor da UFRJ responsável pelo
museu, Roberto Medronho, visitaram as exposições

e exposições temporárias marcam reencontro do público
com a ciência e a arte – Foto: Diogo Vasconcellos

Patrimônio histórico e inovação dialogam nas mostras
Entre os destaques estão instrumentos musicais produzidos pelo luthier Davi Lopes a partir de madeiras recuperadas após o incêndio, transformando fragmentos da tragédia em novas expressões culturais. O suboficial do Corpo de Bombeiros foi um dos profissionais chamados na noite de 2 de setembro de 2018 quando um incêndio tomou conta do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio. Dois violões, um bandolim, um cavaquinho e um violino foram confeccionados com material garimpado em meio aos destroços.
A exposição também presta homenagem às equipes que garantiram a continuidade das atividades institucionais durante os anos mais desafiadores da reconstrução. Achados arqueológicos, elementos históricos restaurados e coleções científicas doadas pelo Museu Sueco de História Natural ampliam a narrativa expositiva, reforçando a relevância da cooperação internacional e da preservação do patrimônio científico.
Já a exposição “Rescaldo das Memórias” conduz os visitantes a uma experiência marcada pela reflexão e pela sensibilidade. Instalada no espaço onde o incêndio teve início, a mostra reúne fotografias e esculturas criadas pelo artista plástico Vik Muniz a partir de cinzas e fragmentos resgatados dos escombros. O ambiente preserva elementos impactantes da destruição, incluindo estruturas deformadas pelo calor, criando um diálogo entre passado e futuro e fortalecendo a mensagem de que a reconstrução também ocorre no campo simbólico e emocional.

Museu Nacional. Os arquitetos decidiram preservar as vigas
como um monumento à violência das chamas e à resiliência
da instituição – Foto: Diogo Vasconcellos

da instituição. Um dos crânios de Luzia e o sarcófago de
Sha-Amun-en-su, feitos com cinzas por Vik Muniz

fragmentos em arte – Foto: Guito Moreto

bombeiro Davi Lopes construiu instrumentos musicais
com a madeira que resistiu ao fogo no Museu Nacional
que agora estão expostos na mostra
As obras apresentadas por Vik Muniz transformam resíduos materiais em elementos de expressão artística, estabelecendo uma narrativa sobre permanência, memória e resiliência. Ao converter vestígios do incêndio em patrimônio cultural, a exposição amplia o debate sobre a capacidade humana de reconstruir significados diante das perdas. O resultado é uma experiência que integra arte contemporânea, patrimônio histórico e reflexão coletiva, ressaltando o papel da cultura como instrumento de reconstrução social e valorização da memória.
Ao reunir ciência, arte, tecnologia e patrimônio, as duas exposições reafirmam a vitalidade do Museu Nacional em reconstrução e demonstram a relevância de sua missão para o Brasil. Mais do que apresentar acervos e obras, as mostras aproximam o público dos processos que sustentam a produção científica e a preservação cultural. O retorno gradual das atividades ao Paço de São Cristóvão simboliza não apenas a recuperação de um edifício histórico, mas também a renovação de um legado fundamental para a educação, a pesquisa e a identidade nacional.