De passivo negligenciado a ativo bilionário, valorização pode estimular criação e tirar o jumento da rota do abandono com demanda global bilionária
Durante décadas, os jumentos ocuparam papel central na estrutura produtiva rural brasileira, especialmente no nordeste, onde foram essenciais para o transporte de cargas, mobilidade e subsistência de milhares de famílias. Com o avanço da mecanização e a substituição por veículos motorizados, esse protagonismo foi drasticamente reduzido. A perda de função econômica levou ao abandono em larga escala, resultando em animais soltos em rodovias e propriedades, ampliando riscos logísticos, sanitários e sociais. Esse processo evidenciou uma fragilidade estrutural: sem valor econômico, ativos biológicos tendem à marginalização dentro do sistema produtivo.
A ausência de políticas estruturadas de manejo agravou o cenário, consolidando um quadro de desorganização e subutilização de um recurso biológico relevante. O jumento deixou de ser ativo produtivo e passou a ser tratado como passivo rural, especialmente em regiões onde sua presença ainda é significativa. Esse contexto gerou externalidades negativas, como acidentes rodoviários e impactos sobre a gestão territorial, reforçando a necessidade de soluções integradas que combinem viabilidade econômica e organização produtiva.
É nesse ambiente que emerge o debate sobre o abate e a exportação como alternativa econômica. O tema evoluiu de uma discussão pontual para um eixo estratégico dentro do agronegócio, impulsionado por dados concretos e pela inserção do animal em cadeias globais de valor. A lógica produtiva é direta: quando há mercado, há estímulo à organização, investimento e geração de renda; na ausência de valor, prevalece o abandono.

no campo e o abandono gera impactos sociais
Essa mudança de perspectiva reposiciona o jumento dentro de uma nova lógica econômica. De elemento marginalizado, passa a ser considerado potencial ativo dentro de uma cadeia internacional estruturada, capaz de gerar receitas, empregos e integração produtiva. O desafio passa a ser transformar essa possibilidade em realidade concreta, com base em governança, regulação e planejamento de longo prazo.
Demografia, escala produtiva e relevância estratégica
Levantamentos recentes da World Population Review indicam que o Brasil possui mais de 730 mil jumentos em 2026, reposicionando o país entre os maiores detentores dessa espécie no mundo. Esse dado altera significativamente a percepção sobre o animal, afastando a ideia de residualidade e consolidando sua relevância como ativo biológico de escala nacional. A metodologia da entidade, baseada em dados de organismos internacionais e institutos estatísticos, confere robustez às estimativas e reforça a importância do tema no contexto agropecuário.
A dimensão do rebanho evidencia um potencial produtivo ainda pouco explorado. Se esses números se confirmarem, essa presença significativa de animais em território nacional representa uma oportunidade latente de estruturação de cadeia, desde que acompanhada por políticas públicas e investimentos privados. No entanto, a ausência de organização formal limita o aproveitamento econômico, mantendo o país distante de uma posição competitiva no mercado internacional.
Outro ponto relevante está na distribuição geográfica desses animais. Concentrados principalmente em regiões historicamente menos mecanizadas, os jumentos podem desempenhar papel estratégico na geração de renda em áreas vulneráveis. Essa característica reforça seu potencial como instrumento de inclusão produtiva, especialmente em contextos onde alternativas econômicas são limitadas.

subcutâneo do jumento, é como medicamento na China
A reconfiguração do jumento como ativo produtivo depende, portanto, de três fatores centrais: escala, organização e mercado. A combinação desses elementos pode transformar um passivo em oportunidade, integrando o animal a cadeias produtivas mais amplas e alinhadas às demandas globais por insumos e produtos derivados.
Demanda internacional e a lógica econômica do ejiao
O principal vetor de crescimento da cadeia está concentrado na Ásia, especialmente na China, com a produção do ejiao, um derivado do colágeno extraído da pele do jumento. Esse produto possui forte demanda na medicina tradicional chinesa e na indústria de suplementos, consolidando um mercado internacional altamente lucrativo e em expansão. A pressão por matéria-prima é crescente, impulsionada por fatores demográficos, culturais e econômicos.
Dados amplamente divulgados pela Reuters indicam que a demanda global exige cerca de 5,9 milhões de peles por ano, enquanto a população de jumentos na China sofreu redução superior a 80% nas últimas décadas. Esse desequilíbrio gerou uma escalada expressiva de preços, com o ejiao registrando valorização de até 30 vezes em apenas uma década. Empresas líderes do setor apresentam resultados robustos, com lucros superiores a bilhões de yuans anuais.
Essa equação, alta demanda combinada à escassez de oferta, cria pressão internacional por novos fornecedores, abrindo espaço para países com disponibilidade de animais e capacidade de organização produtiva. O Brasil, nesse contexto, surge como potencial participante relevante, ainda que enfrente desafios regulatórios e estruturais.

Historicamente, o país já registrou participação nesse mercado, com exportações que superaram 25 mil toneladas de produtos derivados, gerando receitas próximas a US$ 40 milhões. Esses números comprovam a viabilidade econômica da cadeia e reforçam o interesse crescente do setor, que enxerga no mercado internacional uma oportunidade concreta de expansão.
Estrutura produtiva, desafios e viabilidade econômica
Na ponta da cadeia, os indicadores financeiros ajudam a dimensionar o interesse econômico. A receita média por animal pode variar de R$ 370 a até R$ 870, dependendo do nível de integração com mercados internacionais. Essa variação demonstra que quanto mais próxima a operação estiver do consumidor final, maior será a captura de valor, lógica comum em cadeias agroindustriais.
Dados apresentados pela Advocacia-Geral da União indicam que a atividade já gerou centenas de empregos diretos e indiretos, além de envolver produtores rurais e frigoríficos com inspeção federal. Esse cenário confirma que não se trata de um mercado informal, mas de uma cadeia com potencial de estruturação dentro de padrões sanitários reconhecidos.
Entretanto, a base produtiva ainda apresenta limitações significativas. Estudos da Universidade de São Paulo apontam que o Brasil não possui uma cadeia estruturada de criação de jumentos, operando predominantemente em modelo extrativista. A oferta atual depende de animais soltos ou recolhidos, o que limita a previsibilidade e a escalabilidade da produção.

mobilidade e subsistência de milhares de famílias
Além disso, fatores biológicos impactam diretamente a expansão do rebanho. A gestação de aproximadamente 12 meses reduz a velocidade de reposição, exigindo planejamento de longo prazo para qualquer iniciativa de produção organizada. Ainda assim, especialistas destacam que a ausência de demanda consistente é o principal entrave, pois sem mercado não há estímulo à reprodução e ao investimento.
Integração produtiva e novas fronteiras do agronegócio
A abertura e consolidação de mercado podem funcionar como gatilho para a criação de uma nova cadeia pecuária no Brasil. Programas de reprodução, melhoramento genético, rastreabilidade e integração produtiva são apontados como pilares para transformar o jumento em ativo estratégico. Esse modelo, semelhante ao adotado na bovinocultura, permitiria maior eficiência, previsibilidade e geração de valor ao longo da cadeia.
Além do couro, a diversificação de receitas é fator determinante para viabilidade de longo prazo. A exportação de carne e o aproveitamento industrial de subprodutos ampliam significativamente o potencial econômico, alinhando-se ao conceito de uso integral do animal. Essa abordagem já é consolidada em outras cadeias do agronegócio, onde eficiência e redução de desperdícios são fundamentais para competitividade.
O Brasil vive um paradoxo evidente: de um lado, abandono e ausência de políticas de manejo; de outro, um mercado global bilionário com demanda crescente. Nesse contexto, o maior risco para a espécie não é o uso econômico, mas a falta dele. Sem valor, o animal tende à extinção produtiva; com valor, passa a ser manejado, reproduzido e integrado ao sistema agropecuário.
O debate, portanto, evolui para uma dimensão mais ampla, envolvendo comércio exterior, desenvolvimento regional e inovação no agro. A construção de uma cadeia estruturada pode transformar o jumento em nova fronteira produtiva, especialmente em regiões com menor grau de mecanização.

na produção de muares de alta qualidade
O jumento Pêga e o valor do melhoramento genético
Paralelamente ao mercado de exportação, o Brasil desenvolveu uma das mais relevantes linhagens de asininos do mundo: o jumento Pêga. Resultado de seleção funcional e melhoramento genético ao longo de séculos, essa raça se consolidou como referência na produção de muares de alta qualidade. Desenvolvido em Minas Gerais, o Pêga foi moldado para desempenho, resistência e previsibilidade, características essenciais para o trabalho rural.
O valor econômico associado a essa linhagem é expressivo. Muares de alto padrão podem atingir valores de até R$ 200 mil, enquanto reprodutores selecionados podem ultrapassar R$ 500 mil. Esses números evidenciam que o jumento, quando inserido em uma cadeia organizada, pode alcançar elevado nível de valorização, comparável a outras espécies de alto desempenho no agronegócio.
A trajetória do Pêga reforça um ponto central: o valor no campo está diretamente ligado à função e à eficiência produtiva. Historicamente, as mulas foram consideradas ativos estratégicos, muitas vezes superando cavalos em valor, devido à sua resistência e versatilidade. Esse padrão se mantém em nichos específicos, onde desempenho e confiabilidade são determinantes.

de muares de alto valor no mercado brasileiro
Além do aspecto econômico, estudos genéticos recentes indicam que a história dos jumentos é mais complexa e antiga do que se imaginava, reforçando sua importância na evolução das atividades humanas. No Brasil, o Pêga simboliza a capacidade de transformar seleção funcional em ativo econômico de alto valor agregado.
A consolidação do jumento como agente produtivo no agronegócio brasileiro depende da capacidade de integrar valor econômico, organização de cadeia e políticas de manejo sustentável, transformando um passivo histórico em ativo estratégico. Quando inserido em uma lógica produtiva estruturada, o animal deixa de representar custo social e passa a gerar renda, emprego e dinamização econômica, especialmente em regiões vulneráveis e de baixa mecanização. Seja pela exportação de derivados, pelo aproveitamento integral da cadeia ou pelo avanço do melhoramento genético, como no caso do jumento Pêga, o potencial de agregação de valor é significativo. Nesse contexto, o jumento se posiciona como vetor de inclusão produtiva e diversificação do agro, reforçando que, no campo, o valor está diretamente ligado à função econômica e à capacidade de gerar eficiência e sustentabilidade.