Produção nacional deve alcançar 240 mil toneladas em 2026, mas falta de indústria habilitada e de financiamento limita a presença do camarão brasileiro no mercado externo
A carcinicultura brasileira chega à sua principal vitrine técnica em um momento de rara combinação de euforia produtiva e inquietação comercial. Entre os dias 17 e 20 de novembro, o Centro de Convenções de Natal recebe a 22ª Feira Nacional do Camarão – FENACAM’26, realizada pela Associação Brasileira de Criadores de Camarão – ABCC, com mais de 100 empresas expositoras, 200 estandes e cerca de 8 mil metros quadrados de área. Os números projetam a trajetória do setor: a produção nacional deve atingir 240 mil toneladas neste ano, depois de 210 mil em 2024 e 225 mil em 2025, conforme levantamentos da cadeia. O volume impressiona, mas a pergunta que atravessa os corredores da feira é outra, e mais difícil: como transformar crescimento de produção em presença relevante no mercado internacional.
A resposta passa por gargalos estruturais que o setor conhece bem e ainda não resolveu. A insuficiência de indústrias habilitadas para processar e exportar camarão cultivado e a escassez de financiamento para custeio operacional limitam a capacidade de resposta a compradores estrangeiros. Enquanto Equador, Índia e Vietnã consolidaram parques industriais capazes de entregar produto padronizado em escala, o Brasil concentra esforços na produção primária e deixa valor na mesa. A agenda da feira reflete esse diagnóstico ao inserir processamento industrial, agregação de valor e linhas de crédito entre os temas centrais, ao lado dos tradicionais debates de sanidade e manejo.
Realizada em Natal desde 2004, a FENACAM acompanhou a recuperação do setor após a crise sanitária que derrubou a produção na década passada. A 22ª edição reúne quatro eventos simultâneos e programação técnica densa, com 48 palestrantes, sendo 18 internacionais, e cerca de 250 trabalhos técnico-científicos apresentados em sessões específicas. O formato consolidou o encontro como referência da aquicultura na América Latina, combinando exposição de equipamentos, simpósios internacionais, rodadas de negócios e aproximação com compradores. Para produtores e investidores, a feira funciona como termômetro simultâneo de tecnologia disponível e de apetite do mercado consumidor.

de camarão cultivado no país – Foto: Jonathas Sales
O mapa da produção e o peso do Nordeste
A geografia da carcinicultura nacional permanece fortemente concentrada. O nordeste responde por 99,7% da produção de camarão cultivado no país, com o Ceará na liderança, responsável por 125 mil toneladas em 2025, seguido pelo Rio Grande do Norte, que produziu 43 mil toneladas e mantém a segunda posição. No território potiguar, o crustáceo representa quase 78% do valor da produção aquícola estadual, algo próximo de R$ 782 milhões, indicador que explica por que Natal se tornou sede natural do encontro e por que a atividade tem peso político na agenda regional.
A expansão da atividade nos últimos anos tem base técnica consistente. Levantamentos do setor apontam crescimento de 196% na produção nacional em determinado intervalo recente, resultado de melhoramento genético de linhagens, densidade de povoamento mais ajustada, controle sanitário mais rigoroso e adoção de boas práticas de cultivo. A tecnificação das fazendas permitiu recuperar índices de sobrevivência que haviam sido comprometidos pela mancha branca, enfermidade que impôs perdas severas e reordenou a estrutura produtiva. Hoje, os sistemas operam com protocolos de biosseguridade mais rígidos e monitoramento de qualidade de água em frequência superior à de anos anteriores.
O próximo passo discutido em Natal é a interiorização da carcinicultura potiguar, aproveitando recursos hídricos, infraestrutura disponível e fontes de energia renovável em áreas fora da faixa litorânea. A proposta amplia o horizonte de novos entrantes, com espaço para pequenos e médios produtores, e reduz a dependência de áreas estuarinas, territórios ambientalmente sensíveis e cercados por restrições legais. Em paralelo, o licenciamento segue instrumento próprio para a atividade em zona costeira, tema que exige atenção permanente dos empreendedores e das autoridades ambientais. A ocupação de novas áreas depende de planejamento hídrico e energético, não apenas de disponibilidade de terra.

estandes e cerca de 8 mil metros quadrados de área
Inovação, gastronomia e a disputa pelo consumidor
A programação técnica de 2026 coloca a inovação em posição central, com o XXII Simpósio Internacional de Carcinicultura, o XIX Simpósio Internacional de Aquicultura e as XXII Sessões Técnicas e Científicas. Os painéis percorrem genética, sanidade, automação de manejo, boas práticas de cultivo, sustentabilidade e tendências de mercado. A automação merece destaque particular, porque enfrenta um dos limites estruturais da atividade: a dependência de mão de obra em operações de alimentação e despesca. Sensores de qualidade de água, aeradores monitorados remotamente e sistemas de alimentação programada já reduzem custo por quilo produzido em unidades mais tecnificadas.
A valorização do produto encontra na Cozinha Show seu espaço mais visível. Entre os dias 18 e 20 de novembro, das 17:00 às 21:00, degustações e demonstrações gastronômicas aproximam produtores, indústria, restaurantes e consumidores finais. A iniciativa tem função econômica clara: ampliar o consumo interno de camarão cultivado e peixes, criando demanda que sustente preço em período de oferta crescente. O mercado doméstico brasileiro, competitivo e com possibilidade de expansão, funciona como amortecedor das oscilações externas e como base para o produtor planejar o ciclo com menos sobressalto comercial.
Para o público empresarial, a FENACAM’26 tem uma função que vai além da vitrine tecnológica. É o espaço onde produtor, frigorífico, fornecedor de ração, fabricante de equipamento e comprador internacional se encontram no mesmo ambiente e ajustam expectativas. A retomada das exportações depende dessa articulação, da habilitação de plantas industriais junto aos serviços de inspeção e da construção de uma oferta capaz de atender volume, regularidade e padrão de qualidade exigidos por redes varejistas estrangeiras. É um caminho de médio prazo, e a feira funciona como ponto de partida para os acordos que vão viabilizá-lo.
