Bacteriófago reduz lesões do cancro cítrico e abre caminho para biopesticidas

O cancro cítrico permanece entre as doenças bacterianas mais custosas da fruticultura mundial. Causada pela bactéria Xanthomonas citri, a enfermidade provoca lesões em folhas, ramos e frutos, derruba a qualidade comercial da laranja e exige programas permanentes de inspeção e erradicação. Operações de controle já removeram cerca de 16 milhões de árvores no mundo, com custos na casa dos bilhões. No Brasil, o manejo depende de produtos cúpricos, cujo uso intensivo levanta questões ambientais e de resistência.

Uma alternativa começa a se desenhar a partir dos próprios pomares paulistas. Pesquisa conduzida pela Unesp em parceria com o Fundecitrus e com a Universidade Metropolitana de Manchester, publicada em setembro na revista Microbial Genomics, caracterizou 72 bacteriófagos, vírus que infectam bactérias, coletados em folhas com sintomas da doença em 12 pomares de São Paulo entre 2018 e 2021. Desse total, 65 isolados nunca haviam sido descritos pela ciência, um acervo inédito sobre a microbiologia do cinturão citrícola.

O alcance da descoberta ficou evidente nos testes de suscetibilidade. Os 72 fagos foram avaliados contra 122 linhagens de Xanthomonas citri, e cem delas mostraram-se vulneráveis à lise provocada por todos os vírus. Apenas 21 linhagens apresentaram resistência completa e uma respondeu de forma variável. Como a bactéria do cancro na citricultura paulista é geneticamente uniforme, uma única linhagem bem caracterizada já cobre a maior parte das populações encontradas no campo, o que simplifica futuras formulações comerciais.

Pesquisadora analisa cultura bacteriana em laboratório, etapa dos testes que identificou o fago P27 contra a bactéria do cancro cítrico
Pesquisadora analisa cultura bacteriana em
laboratório, etapa dos testes que identificou
o fago P27 contra a bactéria do cancro cítrico

Fago P27 ataca a bactéria dentro do tecido vegetal

O destaque do acervo é o bacteriófago P27, selecionado para ensaios em laranjeiras mantidas em casa de vegetação. O experimento avaliou cinco plantas por tratamento e 156 folhas, com leitura 45 dias após a inoculação. O resultado: redução de 60% na formação de lesões em comparação com plantas não tratadas. Para os pesquisadores, o dado comprova que o vírus consegue infectar e destruir a bactéria dentro do tecido vegetal, condição essencial para qualquer estratégia de biocontrole.

A cinética de infecção ajuda a explicar o desempenho. Metade das partículas virais aderiu às células bacterianas em cerca de dez minutos, e quase todas estavam adsorvidas após 30 minutos. O período latente durou aproximadamente 90 minutos, com ciclo completo de crescimento entre 195 e 210 minutos. Essa velocidade de multiplicação interessa ao produtor porque quanto mais rápido o fago derruba a população bacteriana, menor a janela para a doença avançar no pomar.

O estudo também revelou um mecanismo complementar de ataque. Genes das fibras da cauda viral codificam proteínas com possível função de depolimerases, enzimas capazes de degradar a goma xantana que forma a cápsula protetora da bactéria. Ao dissolver essa barreira, o fago teria acesso facilitado à superfície celular. A hipótese, sustentada por análises genômicas e estruturais, reforça a especificidade da tecnologia: o vírus ataca o alvo e preserva os demais organismos do ambiente.

Pulverização em laranjal: futuro biopesticida à base de fagos seria aplicado junto com doses menores de cobre. Os fagos podem reduzir a dependência de produtos cúpricos
Pulverização em laranjal: futuro biopesticida
à base de fagos seria aplicado junto com doses
menores de cobre. Os fagos podem reduzir a
dependência de produtos cúpricos

Do laboratório ao pomar: os desafios da aplicação

A robustez do P27 em condições extremas anima o desenvolvimento de formulações. Os testes de estabilidade mostraram sobrevivência superior a 70% em faixa de pH entre 4 e 11, com melhor desempenho entre 7,4 e 9, e viabilidade praticamente constante de 80 graus negativos a 50 graus positivos. Essa tolerância térmica e química reduz perdas durante armazenamento, transporte e mistura no tanque, etapas críticas para qualquer biopesticida que pretenda chegar ao campo com eficiência.

O gargalo está na luz. A sensibilidade à radiação ultravioleta limita a persistência do fago sobre as folhas, e a eficácia observada ficou abaixo da obtida com bactericidas convencionais, ainda que os tratamentos tenham explicado cerca de 51% da variação na severidade da doença. Superar essas restrições exige estratégias de proteção da partícula viral, como adjuvantes e horários de aplicação adequados, além de combinações com outros agentes de controle dentro de um manejo integrado.

A rota mais provável para o mercado passa pela associação. A expectativa dos pesquisadores é aplicar os fagos junto com concentrações menores de cobre, reduzindo a dependência do metal sem abrir mão da proteção. Para uma cadeia que coloca o Brasil entre os maiores produtores mundiais de laranja, o ganho é duplo: menos resíduos e pressão ambiental, mais uma ferramenta sanitária em um cenário em que o cinturão citrícola já convive com greening em alta. A ciência dos fagos, nascida em pomares paulistas, pode virar insumo estratégico da citricultura sustentável.

Leia também: