Eucalipto seca o solo e extingue a fauna? O que a ciência revela

A ideia de que o eucalipto “seca o solo” e elimina a fauna local permanece presente no debate ambiental brasileiro, mas não encontra respaldo quando confrontada com dados de fisiologia vegetal, hidrologia e manejo florestal. A água absorvida pelas raízes não desaparece: parte retorna à atmosfera por evapotranspiração, enquanto outra parcela participa da infiltração e do escoamento que abastecem rios e reservatórios subterrâneos. A própria Embrapa destaca que plantações florestais podem contribuir para conservação de solo, água e biodiversidade quando implantadas e conduzidas sob critérios técnicos.

A questão hídrica, portanto, não deve ser analisada pelo volume absoluto de água utilizado por uma espécie, mas pela relação entre consumo, produtividade, clima, solo e disponibilidade hídrica local. Estudos reunidos pela Ibá apontam que o eucalipto apresenta mecanismos fisiológicos de adaptação ao déficit hídrico, reduzindo a transpiração em períodos de seca. O setor brasileiro também reduziu em mais de 75% o consumo específico de água por tonelada produzida desde a década de 1970. Isso desloca o debate da percepção para a eficiência hídrica e para a qualidade do manejo.

Manejo florestal adequado permite conciliar produção de eucalipto, conservação do solo e recursos hídricos
Manejo florestal adequado permite conciliar produção
de eucalipto, conservação do solo e recursos hídricos

A mesma lógica vale para nascentes e cursos d’água. Um plantio localizado inadequadamente, independentemente da espécie cultivada, pode gerar impactos sobre recursos hídricos, sobretudo quando há supressão de vegetação protetora, compactação, erosão ou manejo incompatível com as características da microbacia. É justamente por isso que a proteção de Áreas de Preservação Permanente, a conservação de nascentes, o monitoramento de microbacias e o cultivo mínimo são componentes essenciais da silvicultura responsável. Em sistemas bem planejados, áreas produtivas podem conviver com remanescentes nativos em mosaicos que contribuem para a regulação hídrica e a conectividade da paisagem.

Também merece revisão a afirmação de que o eucalipto “extingue” a fauna. Uma plantação comercial não substitui uma floresta nativa em diversidade estrutural e composição de espécies, mas isso é diferente de afirmar que seja um ambiente biologicamente vazio. Pesquisas da Embrapa registraram aves, mamíferos e outras formas de vida em áreas de silvicultura, inclusive espécies ameaçadas em determinadas paisagens. Em um levantamento realizado em uma propriedade paulista, foram registradas 53 espécies de aves em áreas de cultivo de Eucalyptus. Outro estudo de revisão identificou a ocorrência de espécies nativas vegetais e animais em plantações florestais brasileiras.

Plantios de eucalipto podem integrar mosaicos produtivos com áreas de vegetação nativa
Plantios de eucalipto podem integrar mosaicos
produtivos com áreas de vegetação nativa

A explicação está na paisagem como um todo. Plantios florestais inseridos em mosaicos com Reserva Legal, APPs, corredores ecológicos e fragmentos de vegetação nativa podem oferecer abrigo, deslocamento e recursos para diferentes organismos, embora a qualidade desse habitat varie conforme o manejo e a composição do entorno. A própria Embrapa registra que plantações de eucalipto implantadas em áreas degradadas ou anteriormente ocupadas pela agropecuária podem favorecer a regeneração de espécies nativas no sub-bosque. Em uma revisão de 47 estudos, foram identificadas 858 espécies nativas sob a copa de plantações de eucalipto e pinus.

Há, portanto, uma diferença importante entre reconhecer os impactos potenciais da silvicultura e atribuir ao eucalipto características ambientais absolutas. O desempenho ambiental de uma floresta plantada depende do planejamento territorial, da conservação da vegetação nativa, da proteção dos recursos hídricos e das práticas adotadas durante todo o ciclo produtivo. A atividade também possui relevância econômica expressiva, fornecendo madeira para celulose, papel, energia, painéis, construção e outros produtos. Para o agronegócio brasileiro, a discussão mais produtiva não é escolher entre produção e conservação, mas avaliar como ambas podem ser integradas com base em ciência, tecnologia, monitoramento e responsabilidade ambiental.

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