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Cigarrinha do milho (Dalbulus maidis)

A cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis) tornou-se um problema sério para a agricultura. Esse inseto está hoje amplamente distribuído nas Américas, desde o sul dos Estados Unidos até o norte da Argentina. Ela deixou de ser uma praga exclusiva de regiões produtoras de sementes e hoje está presente em praticamente todas as áreas onde se cultiva o cereal, tanto na primeira safra quanto na safrinha, no país.

No Brasil, ele utiliza apenas as plantas de milho como hospedeiras e ainda são desconhecidos seus mecanismos de adaptação a outros vegetais. Na planta do milho, a cigarrinha causa um dano direto, pela sucção da seiva do floema – o tecido vivo através do qual circulam compostos orgânicos solúveis, em especial a sacarose, pelo corpo vegetal.

Mas esse não é o principal problema: o inseto é também um transmissor de bactérias e vírus que podem causar grandes danos às espécies vegetais, afetar a produtividade e, por decorrência, a produção do milho. As perdas ocasionadas pelos enfezamentos e viroses transmitidos pela cigarrinha podem chegar a mais de 90%, principalmente quando se utiliza um híbrido sensível ao complexo de enfezamento.

Lavoura de milho perdida pelo enfezamento
Lavoura de milho perdida pelo enfezamento

Uma das características que torna as infestações mais frequentes é o fato da espécie apresentar um alto potencial biótico, e a capacidade de migração a longas distâncias. O inseto pode colonizar desde campos recém germinados até o florescimento, em função da progressão das gerações de insetos, e da entrada de outras cigarrinhas já adultas, principalmente quando se tem plantas adultas nas imediações.

Além de causar lesões como inseto sugador, ela é responsável por danos indiretos que geram perdas mais expressivas na cultura, pela transmissão de fitopatógenos como os molicutes, fitoplasma (Maize bushy stunt phytoplasma) e espiroplasma (Spiroplasma kunkelii), sendo estes, os agentes causais do enfezamento do milho. Além de danos como redução do porte das plantas, redução da área foliar, obstrução do floema e má formação de espigas e grãos, o complexo de enfezamento causa podridão de espigas, afetando diretamente no peso e a qualidade dos grãos e aumenta o índice de quebramento de colmo, dificultando a operação de colheita e com isso, há uma significativa perda de produtividade.

Enfezamento severo nas plantas de milho resultando em perdas significativas de produtividade - Foto: O Presente
Enfezamento severo nas plantas de milho resultando em perdas
significativas de produtividade – Foto: O Presente
Plantas apresentando sintomas de enfezamento pálido e vermelho
Plantas apresentando sintomas de enfezamento pálido e vermelho

Como mencionado anteriormente, os enfezamentos podem resultar em danos capazes de gerar perdas totais na lavoura, a ponto de não justificar a colheita. Os principais danos são:

  • Redução da absorção e assimilação de nutrientes pela planta;
  • Redução na capacidade de produção de fotoassimilados;
  • Redução no tamanho da planta;
  • Encurtamento de entrenós;
  • Ocorrência de super-espigamento;
  • Espigas deformadas;
  • Espigas improdutivas;
  • Redução no tamanho de espigas;
  • Grãos mal formados e chochos;
  • Quebra de colmos;
  • Má formação de palhas das espigas;
  • Fungos oportunistas nas palhas, bainhas e colmos.
Espigas com má granação em decorrência do enfezamento - Foto: EMBRAPA/MAPA
Espigas com má granação em decorrência do enfezamento – Foto: EMBRAPA/MAPA

Na fase adulta, a cigarrinha mede de 3,7 a 4,3 mm de comprimento, sendo de coloração amarelo-palha. Apresenta duas manchas circulares negras na parte frontal e é frequentemente encontrada no cartucho do milho. O ovo, amarelado, tem um período embrionário de cerca de nove dias, sendo colocado dentro dos tecidos das plantas, preferencialmente na nervura central da folha.

As ninfas, que vivem no interior do cartucho do milho, passam por cinco instares, período este que dura cerca de 17 dias. Sua biologia é sensivelmente afetada pela temperatura, e em temperaturas abaixo de 20°C as ninfas não eclodem.

Para combater a cigarrinha-do-milho, reduzindo sua população e principalmente impedindo a transmissão de fitopatógenos para novas plantas hospedeiras, duas estratégias são habitualmente adotadas: a pulverização com defensivos agrícolas e o controle biológico. Os defensivos são, de longe, os mais empregados. Mas, o controle biológico vem obtendo crescente adesão.

O fungo Cordyceps javanica em placa de petri
O fungo Cordyceps javanica em placa de petri

Um dos agentes bioinseticidas utilizados em produtos atualmente comercializados é o fungo Cordyceps javanica. Essa espécie generalista apresenta alto potencial de controle sobre insetos sugadores. Mas, até agora, não se sabia exatamente como isso acontecia. Para elucidar o mecanismo de atuação do fungo entomopatogênico sobre a cigarrinha-do-milho foi realizado um estudo, publicado na revista Scientific Reports, pioneiro no Centro de Pesquisa Avançada de São Paulo para Controle Biológico (SPARCBio), constituído pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pela empresa Koppert Biological Systems na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP).

A investigação foi conduzida pela engenheira agrônoma Nathalie Maluta, pós-doutora na área de fitossanidade e pesquisadora da Koppert Brasil. Teve a participação de Thiago Rodrigues de Castro, coordenador de Pesquisa e Desenvolvimento da Koppert Brasil, e de João Roberto Spotti Lopes, professor da Esalq-USP. O trabalho evidenciou que o fungo começa a afetar o comportamento da cigarrinha-do-milho dois dias após a pulverização do bioinseticida, reduzindo a atividade alimentar dos insetos nos vasos do floema das plantas de milho, local onde ocorre a transmissão de fitopatógenos.

Para obter esse resultado, foi utilizada uma técnica, ainda pouco conhecida no Brasil, chamada de electrical penetration graph (EPG). Nesta, a cigarrinha de teste, ativa sobre a planta de milho, é conectada a um eletrodo. E a atividade de seu estilete, isto é, da estrutura bucal, semelhante a minúsculos canudos, utilizada para sugar a seiva, pode ser assim monitorada e representada por meio de um gráfico, permitindo a associação das formas de onda produzidas com as atividades biológicas desempenhadas pelos insetos. Guardadas as devidas proporções, o procedimento é semelhante ao do eletrocardiograma, que monitora graficamente a atividade do coração.

Pesquisa de bancada: canais e eletrodos do sistema de EPG, aos quais os insetos estão conectados, dispostos sobre planta de milho - Foto: Nathalie Maluta
Pesquisa de bancada: canais e eletrodos do sistema de EPG, aos quais os insetos estão
conectados, dispostos sobre planta de milho – Foto: Nathalie Maluta

A técnica de EPG gera formas de onda com diferentes características, como nível de tensão, frequência e amplitude, que podem ser correlacionadas com atividades biológicas do inseto. Isso permite saber, em tempo real, o que ele está fazendo ou o que está acontecendo com ele, inclusive o efeito do bioinseticida sobre sua atividade sugadora ou transmissora de patógenos.

O mecanismo de ação do bioinseticida que tem como princípio ativo o Cordyceps javanica é explicado no artigo. O produto, contendo o fungo, é pulverizado sobre a planta e atinge os insetos ali presentes. Também deixa um filme na superfície vegetal com o qual os insetos que pousam depois entram em contato. De uma maneira ou de outra, o fungo penetra nos corpos dos insetos. Seu efeito não é imediato. Ele precisa de alguns dias para germinar e produzir esporos, levando o inseto à morte. Mas, bem antes disso, o fungo já começa a afetar os seus comportamentos, inclusive o comportamento alimentar.

A atuação do Cordyceps javanica é inteiramente específica e não oferece nenhum risco ao consumidor humano ou animal, tanto que seu uso é permitido para cultivos orgânicos. Esse fungo já existe e atua na natureza. Não foi fabricado em laboratório por manipulação genética. Além de estar sendo agravada agora pela crise climática, a grande proliferação da cigarrinha-do-milho é uma decorrência direta da expansão da monocultura em larga escala e, principalmente, do uso inadequado das ferramentas de manejo, como o controle químico.

Cigarrinha-do-milho conectada ao eletrodo do sistema de EPG sobre planta de milho - Foto: Nathalie Maluta
Cigarrinha-do-milho conectada ao eletrodo do sistema de EPG
sobre planta de milho – Foto: Nathalie Maluta

Ao aplicar inseticidas químicos sem prévio monitoramento e sem saber se há necessidade de entrar com alguma medida de controle, ocorre a seleção de indivíduos resistentes, uma vez que os insetos suscetíveis morrem e os resistentes permanecem no campo, até o ponto em que nenhum instrumento de controle funciona mais. Para os especialistas, é preciso mudar radicalmente as estratégias de manejo.

Esse inseto afeta o milho há muito tempo. Mas, nos últimos anos, sua população cresceu de forma explosiva. Isso também foi afetado pelos cultivos sucessivos. Hoje, tem-se não só as safras, mas também as chamadas safrinhas, o que aumenta a taxa de proliferação da praga, porque ela tem disponibilidade de comida praticamente o tempo todo.

Adulto da cigarrinha do milho (Dalbulus maidis)
Adulto da cigarrinha do milho (Dalbulus maidis)

É sempre bom lembrar algumas estratégias de manejo importantes

  • Utilizar cultivares de milho com resistência genética ao complexo de enfezamento;
  • Eliminar plantas voluntárias de milho na entressafra, que podem servir de inóculo dos patógenos para contaminar as cigarrinhas;
  • Realizar o tratamento de sementes, essa é uma das principais estratégias para proteção inicial da cultura, pois quanto mais jovem for o milho, maior serão os danos causados pela transmissão dos patógenos;
  • Fazer monitoramento e aplicações de bioinseticidas no período vegetativo, principalmente nos estágios iniciais;
  • Evitar semeaduras tardias, que concentram cigarrinhas infectantes com molicutes, na nova lavoura, provenientes de lavouras com plantas adultas presentes nas imediações;
  • Evitar cultivos de milho próximos a lavouras já com presença de enfezamentos;
  • Evitar utilizar sistema de produção com semeadura escalonada;
  • Diversificar híbridos e cultivares para evitar variação genética dos patógenos.

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