Da tradição à inovação: A energia solar vem transformando a pesca artesanal fluminense

A pesca artesanal no estado do Rio de Janeiro iniciou, a partir de 2025, um processo consistente de modernização energética com a incorporação de sistemas fotovoltaicos embarcados. Em comunidades tradicionais de Arraial do Cabo e São Francisco de Itabapoana, a adoção da energia solar já alcança cerca de 285 embarcações, promovendo redução média de custos superior a R$ 550 em períodos de alta atividade. Trata-se de uma mudança estrutural que combina eficiência operacional, sustentabilidade ambiental e aumento da previsibilidade econômica, sem comprometer o caráter cultural da atividade pesqueira artesanal.

Historicamente, a pesca noturna dependia de geradores movidos a combustíveis fósseis, especialmente para a captura de espécies fotossensíveis como a lula. Esse modelo implicava custos elevados, emissão de poluentes e maior desgaste físico dos trabalhadores. Com a introdução dos sistemas solares, compostos por placas fotovoltaicas, baterias de armazenamento e holofotes de alta eficiência, as embarcações passaram a operar com maior autonomia energética. A substituição do diesel por energia limpa elimina ruídos, reduz emissões e amplia o tempo produtivo no mar, criando uma nova dinâmica operacional.

Outro avanço relevante está na otimização da rotina de trabalho. Antes da transição, pescadores precisavam realizar ciclos diários de recarga em terra, estendendo jornadas já extenuantes. Com os sistemas solares, esse processo foi praticamente eliminado, permitindo ganho de tempo, redução do esforço físico e melhoria direta na qualidade de vida. A tecnologia, nesse contexto, não substitui o saber tradicional, mas atua como vetor de eficiência, fortalecendo a atividade no longo prazo.

SustentaMar: Eficiência energética e organização produtiva em Arraial do Cabo

O projeto SustentaMar implementado em Arraial do Cabo, representa um dos casos mais estruturados de transição energética aplicada à pesca artesanal. Iniciado em 2025 com recursos voltados à sustentabilidade, o programa viabilizou a instalação de sistemas solares em 55 das 70 embarcações vinculadas a uma associação local. A iniciativa também incluiu a criação de um ponto de recarga próximo à marina, reforçando a infraestrutura logística e operacional da comunidade pesqueira.

Pescador com o kit fornecido pelo projeto SustentaMar que inclui placa, bateria e refletor - Foto: Projeto SustentaMar
Pescador com o kit fornecido pelo projeto
SustentaMar que inclui placa, bateria e refletor
Foto: Projeto SustentaMar

Os resultados econômicos são imediatos e mensuráveis. O custo médio de recarga caiu para cerca de R$ 20, representando redução significativa frente ao modelo anterior, enquanto a economia total pode ultrapassar R$ 550 em períodos de maior intensidade produtiva. Além disso, a menor dependência de combustíveis fósseis reduz a exposição à volatilidade de preços e à necessidade de deslocamentos frequentes até postos de abastecimento, contribuindo para maior estabilidade financeira das famílias envolvidas.

Do ponto de vista operacional, o SustentaMar promove uma reorganização da rotina de pesca. A disponibilidade contínua de energia durante toda a noite amplia o tempo efetivo de captura e melhora a eficiência das operações. A eliminação de gargalos energéticos permite planejamento mais preciso das atividades, elevando o nível de profissionalização do setor. Ao mesmo tempo, o projeto reforça práticas sustentáveis, alinhando a atividade artesanal às demandas contemporâneas por responsabilidade ambiental.

Pescando Sol: Segurança energética e escala produtiva no norte fluminense

No município de São Francisco de Itabapoana, o projeto Pescando Sol destaca-se pela escala e pelo impacto direto na segurança das operações marítimas. A Colônia Z-1, que reúne mais de 1.500 pescadores ao longo de aproximadamente 60 quilômetros de litoral, enfrentava desafios recorrentes relacionados à falta de combustível e energia em alto-mar. A introdução dos sistemas solares alterou esse cenário de forma significativa.

Instalação de painel solar em um barco pesqueiro, no litoral do Rio de Janeiro - Foto: Projeto Pescando Sol
Instalação de painel solar em um barco pesqueiro, no
litoral do Rio de Janeiro – Foto: Projeto Pescando Sol

Com cerca de 230 embarcações já adaptadas, o projeto fortalece a autonomia energética das tripulações. Mesmo em situações de falha dos sistemas principais, os pescadores conseguem manter funções essenciais, como iluminação e comunicação. A possibilidade de carregar dispositivos móveis em alto-mar representa um avanço crítico em termos de segurança operacional, especialmente para profissionais que permanecem longos períodos embarcados, chegando a semanas ou até um mês contínuo de atividade.

A adesão inicial enfrentou resistência, comum em processos de inovação em setores tradicionais. No entanto, os resultados práticos, sobretudo a confiabilidade dos sistemas e a redução de custos, foram determinantes para ampliar a aceitação. A experiência direta consolidou a percepção de que a energia solar é não apenas viável, mas estratégica para a sustentabilidade da atividade, abrindo caminho para expansão do modelo em outras regiões costeiras do país.

Sustentabilidade, competitividade e futuro da pesca artesanal

A incorporação da energia solar na pesca artesanal fluminense evidencia um modelo de inovação incremental, no qual a tecnologia é integrada sem ruptura com práticas culturais consolidadas. Os benefícios são multidimensionais: redução de custos operacionais, aumento da eficiência produtiva, melhoria das condições de trabalho e mitigação de impactos ambientais. A diminuição do uso de combustíveis fósseis contribui diretamente para a redução de emissões e resíduos, alinhando a atividade a padrões mais sustentáveis.

Pescadores em uma embarcação com tecnologia abastecida por painéis solares, no litoral do Rio de Janeiro - Foto: Projeto SustentaMar
Pescadores em uma embarcação com tecnologia
abastecida por painéis solares, no litoral do Rio
de Janeiro – Foto: Projeto SustentaMar

No campo social, os ganhos são igualmente relevantes. A redução da exposição a ruídos e fumaça, aliada ao menor esforço físico e à ampliação do tempo de descanso, impacta positivamente a qualidade de vida dos pescadores. Esses fatores aumentam a atratividade da atividade para novas gerações, contribuindo para a continuidade da pesca artesanal como patrimônio econômico e cultural.

A tendência de expansão é clara. À medida que os projetos demonstram resultados consistentes e replicáveis, cresce o interesse por sua adoção em outras localidades. O que se observa não é apenas uma modernização tecnológica, mas uma reconfiguração estratégica da atividade. A energia deixa de ser um custo crítico e passa a ser um ativo de competitividade, consolidando um novo paradigma para a pesca artesanal no Brasil.

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