O estresse animal não é invenção de ativistas e o setor precisa repensar as condições das exposições e tradição não encerra o debate
Por trás dos troféus, dos leilões e dos discursos sobre genética, existe uma rotina que raramente ocupa os holofotes. A cada edição de uma grande feira agropecuária, milhares de animais deixam suas propriedades, enfrentam horas de transporte, convivem com ambientes sonoros e olfativos atípicos e são colocados diante de multidões para serem avaliados, premiados e comercializados. A 49ª Expointer, encerrada em setembro em Esteio, no Rio Grande do Sul, recebeu mais de 938 mil visitantes em nove dias e trouxe à tona uma pergunta incômoda: o que acontece com esses animais quando o espetáculo começa?

Transporte, embarque e desembarque, mudança de alimentação
e de rotina, estímulos sonoros, visuais e olfativos atípicos,
contato com agentes patogênicos e o próprio estresse da
competição são também pontos críticos bem conhecidos
O que a ciência diz sobre o estresse de exposição
Os primeiros dias da feira foram marcados por um episódio que a organização preferiria não ver nos noticiários: quatro animais morreram no Parque de Exposições Assis Brasil, três touros da raça Angus e um cavalo, todos com sinais clínicos agudos e atendimento veterinário imediato. Sem os laudos conclusivos, não é possível atribuir as mortes à exposição. O episódio, porém, reabre um debate que a literatura veterinária acompanha há décadas.
A evidência científica existe e não nasce do ativismo. Um estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul avaliou 60 ovinos de 11 raças, com 1.097 observações ao longo de cinco dias no próprio parque de Esteio, em 2011. Os pesquisadores encontraram correlação entre a temperatura ambiente e parâmetros fisiológicos como frequência respiratória e temperatura corporal, concluindo que as condições dos galpões podiam produzir estresse térmico.
A literatura sobre exposições agropecuárias elenca pontos críticos bem conhecidos: transporte, embarque e desembarque, mudança de alimentação e de rotina, estímulos sonoros, visuais e olfativos atípicos, contato com agentes patogênicos e o próprio estresse da competição. Não se trata de uma preocupação de quem desconhece o campo, mas de fatores reconhecidos pela ciência veterinária como determinantes do bem-estar animal.

animal em critério de avaliação. O animal premiado torna-se
referência genética e seu valor econômico aumenta
Quando o corpo do animal vira capital
A discussão costuma ser reduzida à existência de maus-tratos evidentes. Um animal, porém, pode estar saudável e ainda assim ser instrumentalizado. Nas competições, características físicas e genéticas deixam de ser atributos individuais e se transformam em critérios de avaliação: tamanho, peso, musculatura, conformação, linhagem, capacidade reprodutiva e produtividade.
O corpo do animal passa a carregar uma espécie de currículo, e o reconhecimento se converte em valor econômico. Quanto mais desejáveis as características para os interesses humanos, maior o prêmio, a faixa, a referência genética e o preço nos leilões. A economia do melhoramento genético é um dos pilares do agronegócio brasileiro, movimentando contratos, remates e a reputação de cabanhas inteiras.
O arcabouço institucional já existe. A Portaria SDA nº 162, de 18 de outubro de 1994, do Ministério da Agricultura, disciplina as aglomerações de animais; a Resolução SAA 14, de 28 de fevereiro de 2024, em São Paulo, recomenda procedimentos de bem-estar em eventos de concentração; e a Portaria SDA/MAPA nº 1.295, de 03 de junho de 2025 redefine as condições de transporte. A presença do médico-veterinário como responsável técnico é exigência legal. A questão não é a ausência de norma, mas a distância entre o papel e a rotina das pistas.

durante a feira e derrubou grades de contenção mostrando
que animais não são máquinas previsíveis
Tradição não encerra o debate
Houve também um cavalo que disparou em alta velocidade, passou próximo de pessoas e derrubou grades, gerando temor de que alcançasse uma área com crianças e animais que se preparavam para as provas. O episódio terminou sem tragédia, mas expõe uma verdade simples: animais não são máquinas previsíveis. Sentem medo, reagem a estímulos e podem colocar a si mesmos e a terceiros em risco quando a situação foge ao controle.
A tradição explica por que fazemos algo, mas não por que deveríamos continuar fazendo. Práticas consideradas normais em outras épocas foram abandonadas quando se reconheceu sua incompatibilidade com valores éticos. “Sempre foi assim” não deveria encerrar a discussão, e sim abri-la, à luz do que hoje se sabe sobre a capacidade dos animais de sentir, sofrer e buscar conforto.
Não é preciso esperar uma nova tragédia para questionar. Para o empresário rural, o bem-estar animal deixou de ser pauta periférica e se tornou critério de acesso a mercados, exigência de compradores internacionais e componente de competitividade. Repensar as condições de exposição, com manejo de baixo estresse, estrutura adequada e fiscalização efetiva, é ao mesmo tempo uma decisão ética e uma estratégia de negócio.