País é o 2º mais perigoso do mundo com Rondônia e Pará concentrando metade das mortes de defensores do meio ambiente e violência no campo ameaça a imagem do agro brasileiro
O Brasil encerrou 2025 com um dado que contrasta com a imagem de liderança sustentável que o agronegócio nacional procura projetar no exterior. Segundo o relatório anual da organização Global Witness, recentemente divulgado, 26 defensores do meio ambiente foram assassinados no país no último ano, mais que o dobro das 12 vítimas registradas em 2024, uma variação de 116%. O levantamento coloca o Brasil como o segundo país mais perigoso do mundo para ativistas ambientais, atrás apenas da Colômbia.
O perfil das vítimas revela a natureza dos conflitos que atravessam o campo brasileiro. Entre os mortos, 11 eram pequenos agricultores e 7 indígenas, a maioria envolvida em reivindicações de reconhecimento de territórios ancestrais e de demarcação de propriedades rurais. O dado indica que a violência letal não se distribui de forma aleatória, mas acompanha disputas fundiárias históricas, nas quais a ausência de regularização e de segurança jurídica cria um ambiente propício ao confronto.

que respondeu por 11 das 26 mortes registradas no ano
A geografia dos assassinatos reforça essa leitura. Rondônia e Pará concentraram metade das mortes registradas no país, estados amazônicos onde as fronteiras agrícolas e extrativistas avançam sobre comunidades tradicionais. O relatório descreve um cenário em que madeireiros, garimpeiros e pecuaristas ilegais promovem incursões, grilagem e violência letal, em uma combinação de ocupação desordenada e baixa presença do poder público.
O fenômeno, porém, não é exclusividade brasileira. Das 124 mortes de ativistas ambientais documentadas no mundo em 2025, 105 ocorreram na América Latina, cerca de 85% do total. Colômbia e Brasil, somados, responderam por 52% dos episódios letais, o que evidencia uma crise regional ligada à expansão de atividades extrativistas e à fragilidade institucional de proteção aos defensores da terra e das florestas.

povos originários enfrentam pressão de atividades ilegais
Para o setor produtivo, os números têm leitura econômica direta. A violência no campo compromete a reputação do agronegócio brasileiro nos mercados internacionais, em um momento em que compradores e investidores exigem rastreabilidade e critérios socioambientais. A Comissão Pastoral da Terra, em levantamento próprio, também registrou a duplicação dos assassinatos no campo em 2025, com os povos indígenas entre as principais vítimas, o que reforça a urgência de uma agenda de governança fundiária.
O caminho para reverter o quadro passa por combinar regularização fundiária, presença do Estado e diálogo entre os atores do campo. A segurança jurídica é condição para que a produção cresça sem conflito, e a proteção aos defensores ambientais deixou de ser pauta exclusiva de organizações sociais para integrar o cálculo de risco de empresas e investidores. A leitura atenta desses indicadores é instrumento essencial para quem atua no agronegócio e no meio ambiente, pois a estabilidade do setor depende tanto da produtividade quanto da paz no território.