Lavanda vira mel de alto valor na Serra Gaúcha

Os campos roxos que tornaram Morro Reuter um dos destinos mais fotografados da Serra Gaúcha acabam de ganhar uma nova função econômica. O município prepara o lançamento do primeiro mel monofloral de lavanda do Rio Grande do Sul, produto extraído do néctar coletado por abelhas em flores do gênero Lavandula. A apresentação oficial ocorre durante a 7ª Festa Nacional da Lavanda, programada de 15 a 18 de outubro, com entrada gratuita e programação voltada à agricultura familiar, à gastronomia e ao turismo rural.

A novidade tem peso técnico relevante. O mel monofloral exige que a maior parte do néctar provenha de uma única espécie floral, condição difícil de alcançar porque depende de grandes áreas contínuas de florada sincronizada e de manejo apícola preciso. No Brasil, onde a produção é dominada por méis multiflorais de sabor amplo, a categoria ocupa nicho restrito e alcança preços de premium no varejo especializado, em contraste com a pressão de preços que atinge o mel comum nos últimos ciclos. Não é simples fazer com que as abelhas priorizem a lavanda em vez de outras flores.

O produto nasceu de um trabalho de aperfeiçoamento conduzido ao longo de anos pelo Lavandário Enzveiler, do produtor Alexandre Enzveiler, produtor e presidente da Associação dos Produtores de Lavanda de Morro Reuter e Região, com auxílio da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) promovida pelo Senar-RS. Para chegar ao resultado, o produtor instalou 16 colmeias entre as flores e escolheu o período de floração em que a lavanda predomina sobre as demais floradas da região, o mês de outubro. A estratégia consistiu em ampliar a visitação das abelhas nas áreas cultivadas, ajustando o manejo das colmeias e a disposição das colônias em relação às flores. Quando o mel atingiu as características desejadas, amostras seguiram para análises independentes, iniciando o caminho de certificação que separa produtos de origem botânica comprovada dos méis genéricos disponíveis no mercado.

Colmeias instaladas entre fileiras de lavanda na Serra Gaúcha transformam o néctar das flores em especialidade apícola certificada
Colmeias instaladas entre fileiras de lavanda na
Serra Gaúcha transformam o néctar das flores
em especialidade apícola certificada
Análises polínicas e avaliação sensorial em laboratório confirmaram a origem botânica do mel monofloral de lavanda gaúcho
Análises polínicas e avaliação sensorial em
laboratório confirmaram a origem botânica
do mel monofloral de lavanda gaúcho

Ciência valida a origem botânica do produto

A classificação monofloral não se declara, se comprova. Diferente de espécies como laranjeira, girassol e macieira, a lavanda deixa pouco resquício de pólen no mel, o que torna difícil a certificação que atesta a origem da florada. O mel passou por duas análises polínicas e uma avaliação sensorial, conduzidas pelo Laboratório de Análises de Produtos de Origem Animal (LAPOA) da Faculdade de Veterinária da UFRGS e pelo Meliponário Caminhos do Pólen, em laudos alinhados à legislação brasileira. A identificação dos grãos de pólen funciona como uma assinatura botânica: ao examinar o que as abelhas carregaram até a colmeia, os especialistas determinam quais plantas alimentaram a produção de néctar.

O perfil sensorial confirmado segue o padrão descrito pela literatura internacional para a categoria. Trata-se de um mel de aroma floral característico, sabor doce e coloração clara, atributos que podem variar conforme a espécie de lavanda, o clima da safra e a presença de outras floradas na vizinhança. Essa combinação de evidências laboratoriais e avaliação organoléptica confere ao produto rastreabilidade técnica, atributo cada vez mais exigido por varejo gourmet, confeitaria fina e consumidores atentos à procedência.

A validação científica também projeta o produto para além das fronteiras regionais. O Brasil é um dos grandes exportadores mundiais de mel, e a tendência dos mercados compradores é valorizar lotes identificados por origem floral, com documentação analítica completa. Nesse contexto, a experiência de Morro Reuter demonstra que a cadeia apícola nacional consegue produzir especialidades de alto valor quando reúne base agrícola adequada, manejo qualificado e comprovação laboratorial rigorosa em todas as etapas. A análise do mel de lavanda de Morro Reuter apontou 8% de pólen de lavanda.

Produto certificado une apicultura e lavandicultura e se torna atração da Festa Nacional da Lavanda em outubro no município - Foto: Daniela Moraes/PMMR
Produto certificado une apicultura e lavandicultura e
se torna atração da Festa Nacional da Lavanda em outubro
no município – Foto: Daniela Moraes/PMMR

Diversificação e renda na agricultura familiar

A lavanda de Morro Reuter tem história recente e reveladora. O cultivo comercial ganhou escala a partir de 2015, quando um programa municipal distribuiu 12 mil mudas a oito famílias para transformar a flor em símbolo do município. A pandemia e o período de chuvas de 2023 fizeram muitos produtores desistirem da lavanda. O número de famílias que cultivavam a flor caiu de 22 para 15, hoje somando 15 hectares em lavandários no município. Hoje, 15 famílias vivem da lavandicultura, que sustenta a venda de flores, óleos essenciais e derivados, além de movimentar o turismo rural que leva visitantes aos campos floridos a cada estação de floração.

A chegada do mel amplia a aritmética da propriedade. A mesma área que produz flores e óleo essencial passa a gerar uma terceira fonte de renda, sem exigir expansão de plantio, já que as abelhas convertem o néctar em produto acabado. A integração entre lavandicultura e apicultura exemplifica a lógica da diversificação que sustenta a agricultura familiar: mais receita por hectare, menor exposição à sazonalidade e incentivo concreto à permanência das famílias no campo.

O lançamento na Festa Nacional da Lavanda transforma o produto em vitrine. Com entrada gratuita, o evento deve reunir produtores, turistas e compradores em torno de uma cadeia que deixou de se limitar ao perfume e à cor dos campos. Para outras regiões com vocação para cultivos aromáticos, a experiência gaúcha oferece um modelo replicável: flor, polinizador e ciência trabalhando juntos na construção de valor.

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