Pesquisador é destaque na Time por criar método nacional de combate à dengue, refletindo a importância do investimento na ciência
A inclusão do pesquisador brasileiro Luciano Moreira na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da TIME em 2026 consolida o protagonismo do país na ciência aplicada à saúde pública. Classificado na categoria Inovadores, o cientista se destaca pelo avanço de uma solução biotecnológica capaz de reduzir significativamente a transmissão de doenças como dengue, zika e chikungunya, reforçando o papel estratégico da pesquisa científica no desenvolvimento de soluções de alto impacto. Sua formação acadêmica robusta, construída na Universidade Federal de Viçosa e em instituições internacionais, reflete a importância da integração entre ciência nacional e colaboração global.
Além do reconhecimento internacional, a trajetória de Moreira evidencia como investimentos contínuos em pesquisa geram resultados tangíveis para a sociedade, sobretudo em países tropicais fortemente impactados por arboviroses. O Brasil, ao figurar com dois nomes de destaque global, incluindo também Mariângela Hungria, reforça sua relevância em áreas estratégicas da ciência aplicada, com impacto direto na produtividade, sustentabilidade e qualidade de vida.
A tecnologia Wolbachia e a ruptura de paradigma
Ligado ao World Mosquito Program, Luciano Moreira lidera a expansão de uma abordagem inovadora baseada na bactéria Wolbachia, um microrganismo naturalmente presente em cerca de 60% dos insetos do planeta. Diferentemente dos métodos tradicionais que visam eliminar o mosquito, essa estratégia permite que o Aedes aegypti continue existindo, porém sem capacidade de transmitir vírus, promovendo um controle biológico sustentável e de longo prazo.

ganhou destaque entre os cientistas na lista da “Nature” ao
ajudar no combate à dengue no país – Foto: WMP
Essa ruptura de paradigma representa um avanço significativo na gestão de riscos sanitários, ao substituir práticas intensivas em inseticidas por uma solução baseada na natureza, com elevada eficiência comprovada. A Wolbachia não infecta humanos nem se dissemina de forma descontrolada no ambiente, o que fortalece sua aceitação regulatória e social. Trata-se de uma inovação com forte potencial de escalabilidade e impacto global, especialmente em regiões com desafios estruturais no controle de vetores.
Escala, evidência científica e impacto no Brasil
Desde sua introdução no Brasil entre 2011 e 2012, com atuação da Fiocruz, o método passou por extensas validações laboratoriais e de campo. Os resultados obtidos ao longo de mais de uma década demonstram eficácia consistente, com destaque para cidades como Niterói, onde foi registrada redução de até 89% nos casos de dengue. Atualmente, a tecnologia está presente em 15 países e em diversos municípios brasileiros, consolidando-se como uma das principais estratégias globais de controle de arboviroses.
A robustez dos dados científicos foi fundamental para viabilizar a expansão do programa, garantindo credibilidade junto a órgãos públicos, comunidade científica e população. Esse processo evidencia que a ciência aplicada, quando bem estruturada e financiada, consegue transpor o ambiente acadêmico e gerar benefícios diretos à sociedade, fortalecendo políticas públicas baseadas em evidências.

em escala industrial no Paraná
Infraestrutura, biofábricas e capacidade produtiva
Um marco relevante dessa trajetória foi a criação da Wolbito do Brasil, inaugurada em Curitiba como a maior biofábrica do mundo dedicada à produção de mosquitos com Wolbachia. Sob liderança de Moreira, a estrutura possui capacidade de produzir até 5 bilhões de mosquitos por ano, com uma equipe altamente qualificada e atuação integrada com instituições como o Instituto de Biologia Molecular do Paraná – IBMP e o próprio World Mosquito Program.
Essa infraestrutura representa um salto estratégico na industrialização da biotecnologia aplicada à saúde pública, permitindo ganho de escala, padronização de processos e ampliação da cobertura territorial. A consolidação de biofábricas posiciona o Brasil como referência global em inovação biológica, com potencial de exportação de tecnologia e conhecimento para outros países afetados por doenças transmitidas por vetores.

está redefinindo o combate à dengue

com a bactéria Wolbachia, para que se reproduzam
com os mosquitos locais e como resultado reduzam os
casos de dengue – Foto: Flávio Carvalho-WMP/Fiocruz
Financiamento, formação científica e futuro da inovação
A trajetória de Luciano Moreira está diretamente associada ao apoio de instituições como o CNPq, desde a iniciação científica até projetos estruturantes. Esse histórico reforça que o investimento em ciência não se limita à geração de conhecimento, mas à formação de capital humano qualificado e à criação de soluções estratégicas para o país. O projeto Wolbachia, inclusive, teve no financiamento inicial do CNPq um ponto decisivo para sua implementação no Brasil.
O pesquisador defende a ampliação dos investimentos em ciência como condição essencial para o desenvolvimento nacional, destacando que inovação exige continuidade, visão de longo prazo e valorização dos profissionais da área. Paralelamente, ele ressalta que o método deve integrar um modelo mais amplo de controle, combinando eliminação de criadouros, vigilância epidemiológica e vacinação, como a introduzida no SUS em 2023. A convergência de estratégias é fundamental para resultados sustentáveis e duradouros.