ONU elegeu 2026 como Ano Internacional das Mulheres na Agricultura, e a FAO estima ganhos bilionários ao eliminar as desigualdades que ainda limitam as produtoras rurais
A agricultura brasileira discute produtividade, rastreabilidade e sustentabilidade com sofisticação crescente, mas um dos ganhos mais relevantes para o setor permanece subaproveitado: o empoderamento das mulheres no campo. A FAO, agência da ONU para a agricultura, calcula que eliminar as barreiras de gênero no meio rural poderia elevar em até US$ 1 trilhão o PIB global, além de reduzir a insegurança alimentar para pelo menos 45 milhões de pessoas. O número supera, por si só, o efeito esperado de boa parte das agendas de produtividade discutidas nas principais cadeias agrícolas.
A dimensão do tema ganhou palco institucional próprio. A ONU declarou (resolução A/RES/78/279) 2026 como o Ano Internacional das Mulheres na Agricultura, e o Dia Internacional da Mulher Rural, celebrado em 15 de outubro passado, movimentou posições públicas de governos e empresas no Brasil e no mundo. A ONU Mulheres defendeu a remoção das barreiras que impedem as produtoras de exercer autonomia econômica e liderança, com direitos, recursos e poder proporcionais às suas contribuições para os sistemas alimentares, a terra, a água e a biodiversidade.
Os números mostram que a discussão é econômica, não apenas social. Os sistemas agroalimentares são os maiores empregadores globais de mulheres: em 2023, elas representavam 42% da força de trabalho rural mundial, da produção ao comércio dos alimentos. No Brasil, dados da FAO indicam 31,9% da mão de obra agrícola ocupada por mulheres, proporção que sobe para 68,2% entre as trabalhadoras por conta própria. Em escala latino-americana, são 60 milhões de mulheres no campo, responsáveis por 60% a 80% dos alimentos consumidos na região.

por mulheres, contra 13,2% das dirigidas por homens, o
que simboliza o acesso desigual à tecnologia que limita a
produtividade das mulheres produtoras rurais brasileiras
O retrato dos números brasileiros
O Censo Agropecuário 2017, do IBGE, registrou o avanço mais expressivo da série histórica: as mulheres passaram a dirigir 18,7% dos estabelecimentos rurais do país, contra 12,7% em 2006, crescimento de quase 50% em pouco mais de uma década. Quando se considera a gestão compartilhada, o quadro muda de escala: mais de 1,7 milhão de mulheres participam das decisões das fazendas brasileiras, que juntas administram uma área superior a 30 milhões de hectares, força produtiva que define rumos de safras inteiras.
A tendência se confirma no mercado de trabalho. Levantamento do Cepea/CNA mostrou que a força de trabalho feminina no agronegócio cresceu 1,9% entre o segundo trimestre de 2024 e o de 2025, com a adição de cerca de 203 mil mulheres, enquanto a ocupação masculina avançou apenas 0,2% no período. Hoje, as mulheres já representam perto de 38% de toda a população ocupada no agro brasileiro, velocidade de inclusão explicada pela qualificação técnica e gerencial de uma nova geração de profissionais.
O contraponto, porém, é estrutural. A FAO mede que, em propriedades de mesmo tamanho, a produtividade das mulheres é 24% menor que a dos homens, consequência do acesso desigual a capital, educação e tecnologia. O Censo Agro registrou que apenas 12,2% das mulheres na agricultura familiar receberam alguma orientação técnica, e a presença de tratores nas fazendas dirigidas por elas é de 4,2%, contra 13,2% nas dirigidas por homens. Na titularidade da terra, o registro em nome de mulheres varia de 5,5% a 19% conforme a região.

familiar e a qualificação técnica das novas gerações do agro com
compartilhamento de dados no campo, ilustra a nova geração de
mulheres formadas em gestão e tecnologia que assume as fazendas
O gargalo do crédito e a liderança em construção
Sem a terra como garantia, o acesso ao crédito se torna o segundo estrangulamento. Estudo do Climate Policy Initiative mostra que apenas 13% dos empréstimos do Pronaf foram direcionados a propriedades dirigidas por mulheres, embora elas liderem cerca de 20% dos estabelecimentos familiares, uma defasagem de 16 pontos percentuais na média de acesso. Muitas vezes o financiamento da família já está tomado no cadastro do cônjuge, o que limita linhas específicas como o Pronaf Mulher e trava a capacidade de investimento das produtoras.
A desigualdade também ecoa no ambiente corporativo. Pesquisa da ABAG apontou que 74,2% das mulheres do agronegócio já sofreram algum tipo de preconceito no setor, e a presença feminina em cargos de decisão ainda caminha atrás do talento disponível. Mesmo assim, avanços concretos se multiplicam: empresas do setor criam programas de equidade de gênero para formar técnicas e lideranças de campo, e iniciativas como o Prêmio Mulheres do Agro dão visibilidade a histórias que reeducam o próprio mercado sobre o papel feminino na porteira para dentro.
A sucessão familiar promete acelerar a transformação. Uma nova geração de mulheres, formada em agronomia, gestão e tecnologia, assume o comando de fazendas antes transmitido quase sempre aos filhos homens, quebrando tradições herdadas junto com as terras. Nas salas de aula dos cursos de agronomia, a proporção feminina cresce a cada ano, ainda que elas sejam apenas 20% dos engenheiros agrônomos registrados no sistema Confea-Crea. A safra futura de profissionais já está matriculada, e o efeito sobre as cadeias produtivas tende a ser duradouro.

para corrigir o acesso limitado à assistência na agricultura familiar
Agenda de valor para o agronegócio
Há também um argumento ambiental que interessa diretamente ao público deste portal. Pesquisa da consultoria Quiddity revelou que 76% das produtoras rurais têm a sustentabilidade como tema de maior interesse para capacitação, sinal de afinidade com as agendas de baixo carbono, recuperação de áreas degradadas e manejo responsável da água. Com as mudanças climáticas desvalorizando em até 3% as lavouras conduzidas por mulheres a cada dia de calor extremo, dar ferramentas a esse público é também gestão de risco climático.
O caminho exige atuação coordenada. A assistência técnica precisa chegar às agricultoras com a mesma densidade que chega aos demais produtores, o crédito deve corrigir a distorção da garantia fundiária, e o acesso à mecanização e à agricultura de precisão deve constar das políticas públicas como objetivo explícito. A ONU Mulheres vai adiante e propõe que as mulheres rurais participem da formulação das políticas agrícolas, decidindo como o financiamento climático será aplicado em seus territórios, da proteção da biodiversidade à restauração de terras.
Para o empresariado do agro, a equação final é objetiva. Um segmento que responde por quase 38% da força de trabalho do setor e administra 30 milhões de hectares não pode operar com produtividade 24% menor por falta de recursos, tecnologia e reconhecimento. Fechar essa lacuna significa colocar terras mais produtivas, ampliar a oferta de alimentos e elevar a renda no campo, com efeito direto sobre a inflação dos alimentos e o PIB do agronegócio. O investimento em mulheres rurais não é custo social: é uma das alocações de capital mais rentáveis disponíveis para o setor nos próximos anos.