Propriedade em Flores da Cunha transforma paisagem, gastronomia e manejo regenerativo em produto turístico com receita própria e agenda por reserva
A vitivinicultura brasileira atravessa um momento em que a garrafa deixou de ser o único produto vendido. A queda do consumo global de vinho, no menor patamar em décadas, encontrou nas propriedades abertas ao público uma via de compensação. O enoturismo cresceu 57,8% nas experiências comercializadas no Rio Grande do Sul em 2025 e já responde por cerca de um quarto do faturamento das vinícolas serranas. O dado, apresentado em levantamento econômico setorial, redimensiona o papel da visitação.
Nesse cenário, propriedades de porte médio ganharam relevância analítica maior do que as grandes marcas. Uma unidade rural em Flores da Cunha, na comunidade de São João, a Vinícola Madre Terra, distante seis quilômetros do centro urbano e a 847 metros de altitude, ilustra o modelo com clareza: 45 hectares, dos quais 3,7 hectares de vinhedos próprios e 1,5 hectare em produção efetiva. A escala é pequena para volume, mas suficiente para sustentar um calendário de experiências que exige reserva.
O arranjo interessa ao produtor que avalia diversificar receita, porque reverte a lógica de dependência do preço da uva e do mercado de varejo. Cada visita comercializada tem margem definida, previsibilidade de agenda e efeito multiplicador na venda direta de garrafas. É gestão de ativo territorial, não apenas hospitalidade, e essa distinção muda o cálculo de retorno sobre capital investido na propriedade.

Madre – Rafael, Izabel, Hermes e Táina Zanetti

massas, cream cheese com salmão e as bebidas da
vinícola em um cenário entre vinhedos e o lago

manejo que protege o solo em declive acentuado da Serra Gaúcha,
paisagem que se tornou o principal ativo comercial da
propriedade – Foto: Ismael Steffen/Stf Estudio
Terroir construído sobre manejo, não apenas sobre solo
O substrato agronômico da propriedade tem componentes objetivos. Solo argiloso de origem basáltica, com boa drenagem, e relevo ondulado organizado em patamares semelhantes aos do Douro português, onde o declive exige condução em curvas de nível. As variedades tintas incluem Cabernet Franc, Merlot, Teroldego, Pinot Noir e Marselan. Entre as brancas aparecem Chardonnay, Riesling e Gewurztraminer. A produtividade controlada fica entre 6 e 8 mil quilos por hectare.
O manejo declarado é o regenerativo, com plantas de cobertura nas entrelinhas, manejo integrado de pragas e recomposição da vegetação nativa do entorno. Há justificativa agronômica concreta nessa escolha: a cobertura viva reduz perda de solo em declive, melhora infiltração e amortiza amplitude térmica, além de atenuar o efeito do vento no início do ciclo vegetativo, quando os ramos ainda são tenros e vulneráveis à dessecação.
A paisagem funciona como infraestrutura do negócio. São mais de 500 árvores ornamentais catalogadas, distribuídas em cerca de 80 espécies, cinco lagos naturais, dois trechos de trilha em mata nativa e um bosque tratado como espaço de contemplação. Capital natural inventariado e manejado vira diferencial comercial, e é justamente essa conversão que separa uma propriedade bonita de um destino com capacidade de gerar receita recorrente.

passeio de barco no lago com espumante, frutas e frios
Foto: Foto: Garfo & Mala

em adega de pequeno porte, etapa produtiva que integra
o roteiro de visitas – Foto: CaféViagem

experiências exclusivas que unem vinho, natureza,
gastronomia e bem-estar – Foto: Garfo & Mala
Da cozinha ao barco: a operação por trás da experiência
O portfólio de visitação foi desenhado em módulos, cada um com duração e capacidade próprias. Há a degustação guiada com caminhada pelos jardins e vinhedos em patamares, a vivência de cozinha em que o visitante prepara entrada, prato principal e sobremesa em grupos pequenos, o passeio de barco em lago privativo e a prática de bem-estar que combina respiração, movimento e taça. A lógica é modular e escalonável, permitindo ajuste de ticket médio sem ampliar estrutura física.
O restaurante instalado dentro de uma horta, com paredes de terra e mesas entre canteiros de temperos, é a peça mais sensível do conjunto. Ele exige produção própria de insumos, sazonalidade respeitada e equipe com formação em cozinha, além de reserva prévia para dimensionar compras. Almoços e jantares autorais, servidos apenas por agendamento, evitam o desperdício típico da operação de porta aberta e protegem a margem do negócio.
O efeito econômico transborda a porteira. A propriedade declara preferência por contratar moradores da própria comunidade e comprar insumos locais, como morangos e flores comestíveis. Numa região que reúne mel, queijos, manteigas, produção de morango e criação de cavalos, esse encadeamento produtivo aponta para a formação de rota turística integrada, em que o visitante permanece mais tempo e distribui gasto entre vários empreendimentos.