Bactérias formam escudo e protegem o trigo contra fungo que ataca as raízes

Um trio de bactérias benéficas está se consolidando como ferramenta promissora para proteger o trigo brasileiro de uma das doenças mais comuns do cereal. Pesquisa conduzida pela Embrapa em parceria com a Universidade de São Paulo – USP demonstrou que a aplicação desses microrganismos nas sementes reduziu em cerca de 60% os sintomas da podridão da raiz, enfermidade causada pelo fungo Bipolaris sorokiniana, que ataca a base e o sistema radicular e prejudica a absorção de nutrientes.

O estudo, publicado na revista NPJ Biofilms and Microbiomes, revela um mecanismo de ação que amplia o entendimento do controle biológico. As bactérias não eliminam o fungo do ambiente, mas reestruturam a comunidade de microrganismos ao redor das raízes, criando um escudo microbiológico que mantém o patógeno sob controle. Para o agricultor, o resultado prático é uma lavoura mais saudável, com menor pressão de doença e melhor aproveitamento dos nutrientes disponíveis no solo.

A relevância econômica é imediata. A podridão da raiz é uma das doenças mais frequentes do trigo no país, cereal que somou 7,87 milhões de toneladas em 2025, conforme dados da Conab, e ultrapassa 800 milhões de toneladas em escala mundial. Reduzir a severidade dessa enfermidade significa proteger diretamente a rentabilidade de quem produz, especialmente em cenários de margens apertadas e clima cada vez mais instável.

Pesquisadora compara sistemas radiculares de trigo em laboratório para avaliar o efeito das bactérias sobre a doença nas raízes
Pesquisadora compara sistemas radiculares de
trigo em laboratório para avaliar o efeito das
bactérias sobre a doença nas raízes
À esquerda, patógeno cultivado sozinho, usado como controle. Na sequência, Streptomyces virginiae, Paenibacillus ottowii e Pseudomonas inefficax inibem crescimento do fungo in vitro - Imagens: Caroline Sayuri Nishisaka/Embrapa
À esquerda, patógeno cultivado sozinho, usado como controle.
Na sequência, Streptomyces virginiae, Paenibacillus ottowii e
Pseudomonas inefficax inibem crescimento do fungo in vitro
Imagens: Caroline Sayuri Nishisaka/Embrapa

O trio bacteriano e o escudo invisível

Os pesquisadores selecionaram três espécies promissoras a partir do levantamento do microbioma de solos cultivados com variedades ancestrais de trigo, originárias de regiões próximas ao centro de origem do cereal, como Turquia e Irã. São elas Streptomyces virginiae, Paenibacillus ottowii e Pseudomonas inefficax. Nos experimentos, as bactérias foram aplicadas nas sementes e as plantas cultivadas em solos contendo o fungo patogênico, reproduzindo condições próximas às reais de campo.

Contra as expectativas sugeridas pelo próprio nome, a Pseudomonas inefficax foi a espécie mais eficaz. Ela promoveu o maior aumento de biomassa radicular e atuou com mais intensidade na reorganização do microbioma, restaurando funções ligadas à proteção vegetal. Juntamente com a Streptomyces virginiae, também apresentou a maior presença de genes promotores de crescimento, tanto em riqueza quanto em diversidade, indicando que a defesa da planta vem acompanhada de raízes mais vigorosas.

O que chama atenção nos resultados é a abordagem ecológica adotada. O fungo continuou presente no solo em quantidades semelhantes nas plantas doentes e nas saudáveis. O que mudou foi o resultado da interação. Ao atuar como engenheiro ecológico, a bactéria reorganiza o ambiente para que o patógeno oportunista permaneça sob controle, sem necessidade de erradicá-lo. A comparação com o sistema imune humano ajuda a entender o fenômeno: um organismo em equilíbrio resiste melhor a ameaças externas.

Lesões provocadas nas raízes pelo B. sorokiniana: da esquerda para a direita, plantas sem sintomas, com lesões leves, moderadas e severas - Foto: Caroline Sayuri Nishisaka/Embrapa
Lesões provocadas nas raízes pelo B. sorokiniana: da esquerda
para a direita, plantas sem sintomas, com lesões leves, moderadas
e severas – Foto: Caroline Sayuri Nishisaka/Embrapa
Sementes de trigo recebem tratamento com inoculante biológico, tecnologia aplicada no plantio para proteger as raízes da cultura
Sementes de trigo recebem tratamento com inoculante biológico,
tecnologia aplicada no plantio para proteger as raízes da cultura

Caminho aberto para novos inoculantes biológicos

Os achados abrem perspectiva concreta para o desenvolvimento de novos inoculantes biológicos no mercado brasileiro. Todos os microrganismos avaliados integram o portfólio de ativos da Embrapa e podem ser licenciados por empresas interessadas em transformar a descoberta em produto comercial. A expectativa é que o produtor disponha de uma ferramenta acessível, aplicada no tratamento de sementes, capaz de reduzir a dependência de defensivos químicos e agregar valor às lavouras de trigo.

A pesquisa também aprofunda o conhecimento sobre a relação entre a diversidade do microbioma e a severidade das doenças radiculares. Trabalho anterior do mesmo grupo já havia demonstrado que solos com baixa diversidade microbiológica favorecem infecções mais graves pelo fungo Bipolaris sorokiniana. Agora, os cientistas buscam identificar quais metabólitos produzidos pelas plantas sustentam as bactérias benéficas e prever as vias metabólicas ativadas nessa interação, etapas essenciais para transformar a descoberta em tecnologia adaptada a diferentes regiões produtoras.

Para a triticultura brasileira, o avanço chega em momento oportuno. O manejo integrado de doenças, com rotação de culturas, correção de solo e uso criterioso de defensivos, passa a contar com um aliado biológico que atua na raiz do problema. No contexto mais amplo, a iniciativa reforça o papel da ciência nacional na construção de uma agricultura mais sustentável, em que a saúde do solo e a biodiversidade microbiana deixam de ser conceitos abstratos para se tornar estratégia competitiva real no campo.

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