Do interior do RJ ao topo mundial, produção caprina fluminense ganha projeção global após conquistar premiação internacional, com o ‘chèvre’ do Capril do Lago faturando o primeiro lugar no Mundial de Queijos, que aconteceu em São Paulo
A conquista do título de melhor queijo de cabra do mundo por um produto desenvolvido em Valença, no sul do Rio de Janeiro, representa um marco relevante para o agronegócio brasileiro. Produzido pelo Capril do Lago, o queijo tipo chèvre destacou-se no Mundial de Queijos realizado em São Paulo, evento que reuniu mais de 2.700 amostras de 18 países. Trata-se de um reconhecimento que transcende o mérito individual e posiciona o Brasil em um novo patamar competitivo no segmento de lácteos finos.
A premiação evidencia a capacidade técnica e a evolução da produção artesanal brasileira, resultado de anos de investimento em qualidade, inovação e gestão eficiente. Em um cenário historicamente dominado por países europeus, o desempenho do produto fluminense reforça a competitividade nacional, demonstrando que a combinação entre conhecimento técnico e identidade territorial pode gerar produtos de padrão internacional.
O queijo brasileiro conquista o mundo,
reposicionando o país no mercado global
de lácteos premium, mostrando a força do
terroir na nova queijaria brasileira, com
inovação e tradição elevando o produto artesanal
nacional ao mais alto nível internacional
Além do impacto direto sobre a marca produtora, o reconhecimento atua como um vetor de valorização de toda a cadeia produtiva. Desde o manejo animal até os processos de maturação, cada etapa passa a ser percebida como parte de um sistema integrado de qualidade. Isso contribui para ampliar o interesse de mercados e consumidores, tanto no Brasil quanto no exterior.
Outro aspecto estratégico é o fortalecimento do turismo gastronômico regional, que tende a se beneficiar da visibilidade gerada pela premiação. A valorização de produtos com identidade territorial cria oportunidades de diversificação econômica, agregando valor às propriedades rurais e incentivando a permanência de produtores no campo. Além do melhor queijo de cabra do mundo, o município do Médio Paraíba fluminense, ganhou destaque nacional ao conquistar 13 medalhas no 4º Mundial do Queijo do Brasil.


destaque nacional ao conquistar 13 medalhas no
4º Mundial do Queijo do Brasil, realizado em São Paulo
Tecnologia, terroir e diferenciação do produto
O diferencial do queijo premiado reside na combinação entre técnicas tradicionais e elementos naturais únicos do território. Produzido a partir do leite de cabras das raças Saanen e Murciana-Granadina, reconhecidas pela alta qualidade, o produto apresenta uma base sólida para desenvolvimento sensorial refinado. A fermentação com iogurte contribui para a formação de uma textura equilibrada e perfil aromático complexo.
O elemento mais distintivo, no entanto, está no processo de maturação. O queijo é envelhecido por 21 dias em cuias de sapucaia (Lecythis pisonis), um recurso natural que cria condições específicas de umidade e microclima. Esse ambiente favorece o desenvolvimento controlado de fungos como Geotrichum candidum e Penicillium camemberti, típicos da Mata Atlântica, responsáveis pela formação da casca e pela evolução sensorial do produto.
Esse método confere ao queijo características únicas, com notas que remetem a castanhas, madeira e leve picância, além de textura aveludada e massa cremosa. Trata-se de um exemplo claro de como o conceito de terroir, a interação entre ambiente, matéria-prima e técnica, pode ser explorado de forma estratégica para gerar diferenciação competitiva.
A presença do Selo Arte, que permite a comercialização interestadual, amplia o alcance do produto e reforça a importância de políticas públicas voltadas à formalização e valorização da produção artesanal. Esse tipo de certificação é fundamental para consolidar mercados e garantir segurança ao consumidor.


Lago: leite combinado com iogurte

garantem leite de alta qualidade
Gestão produtiva, bem-estar animal e qualidade do leite
A qualidade do produto final está diretamente associada à gestão integrada da propriedade. O Capril do Lago adota práticas que priorizam o bem-estar animal, a nutrição adequada e a qualidade da água, fatores determinantes para a obtenção de leite de alto padrão. Esse cuidado reforça um princípio fundamental da cadeia láctea: não é possível produzir um queijo de excelência sem matéria-prima de qualidade superior.
O manejo das cabras envolve atenção constante ao ambiente, conforto e sanidade, aspectos que impactam diretamente a composição do leite. A escolha das raças também é estratégica, considerando produtividade e características sensoriais desejadas. Esse nível de controle técnico permite maior previsibilidade nos processos e consistência no produto final.
Após a ordenha, o leite passa por etapas rigorosas de processamento, incluindo fermentação e maturação controlada. A combinação entre conhecimento empírico e fundamentos técnicos resulta em um produto que equilibra tradição e inovação, atendendo às exigências de mercados cada vez mais sofisticados.
A consolidação desse modelo produtivo demonstra que pequenas e médias propriedades podem alcançar alto nível de competitividade quando adotam práticas modernas de gestão, aliadas à valorização de saberes tradicionais.

artesanal. Produto possui Selo Arte e pode ser
comercializado nacionalmente

dura 21 dias em ambiente natural controlado,
garantindo identidade única

dentro da cuia da árvore Sapucaia, árvore que
está por toda Valença, sul fluminense
Impacto econômico, inovação e perspectivas para o setor
A conquista internacional do queijo fluminense representa um ponto de inflexão para o setor de queijos artesanais no Brasil. Ao validar a qualidade dos produtos nacionais em um ambiente altamente competitivo, abre-se espaço para expansão de mercado, aumento das exportações e valorização do consumo interno.
Programas de incentivo, como o Agrofundo, têm papel relevante nesse contexto, ao oferecer crédito acessível e fomentar a modernização das propriedades rurais. Esse tipo de política contribui para reduzir gargalos produtivos e estimular a inovação, criando condições para que novos produtores alcancem níveis elevados de qualidade. O programa tem sido um grande parceiro dos produtores, criando oportunidades e incentivando o crescimento do setor, o que faz toda a diferença para continuar evoluindo, declara o produtor.
O histórico do Capril do Lago, com mais de 70 premiações, a única queijaria no Brasil com queijo na lista dos 12 melhores queijos no Mondial du Fromage de Tours, na França, em 2023, evidencia a importância da consistência produtiva e do investimento contínuo em melhoria. A trajetória do queijo Sapucaia do Lago, criado há apenas três anos e já amplamente reconhecido, demonstra o potencial de crescimento do segmento quando há alinhamento entre técnica, identidade e estratégia de mercado.
O reconhecimento internacional contribui para desconstruir a percepção de inferioridade dos produtos brasileiros frente aos europeus. Ao contrário, evidencia que o Brasil possui condições únicas de biodiversidade, clima e diversidade cultural, capazes de sustentar uma produção diferenciada e altamente competitiva no cenário global.