Evento na USP vai reunir pesquisadores do Brasil e do exterior para celebrar a vida e a obra de um dos maiores nomes da geografia, com um legado geográfico que redefine território, tecnologia e sociedade
O centenário de Milton Santos (1926–2001) reposiciona sua obra como referência estruturante para a compreensão contemporânea do território, sobretudo em contextos de transformação tecnológica e econômica. Mais do que analisar a natureza ou agentes isolados, o autor consolidou uma abordagem que entende o espaço como elemento ativo na dinâmica social, influenciando diretamente processos produtivos, fluxos econômicos e organização da vida coletiva. Essa visão amplia o papel da geografia como ferramenta estratégica para planejamento e tomada de decisão em setores como o agronegócio.
Em homenagem à data, o Instituto de Estudos Brasileiros – IEB, vinculado à Universidade de São Paulo – USP, promove o seminário “Milton Santos 100 Anos – Um Geógrafo do Século XXI”, entre hoje (04) e 8 de maio. O evento reúne especialistas nacionais e internacionais em conferências, debates e mesas-redondas, com entrada gratuita e transmissão digital, ampliando o acesso ao conhecimento. A programação também inclui o lançamento da obra “A Bahia nos Anos 50: Cidade e Região”, reforçando a relevância histórica e analítica da produção do autor.
A presença de pesquisadores como Jacques Lévy, Miguel de Barros, María Laura Silveira e Maria Auxiliadora da Silva evidencia o alcance global do pensamento de Milton Santos. A diversidade de perspectivas contribui para uma leitura contemporânea de suas teorias, especialmente no que diz respeito à relação entre território, globalização e desigualdades socioeconômicas.

Foto: Jorge Maruta/USP Imagens
Território, tecnologia e dinâmica socioeconômica
Desde a década de 1960, Milton Santos já investigava o impacto dos sistemas técnicos na organização da vida social, antecipando discussões que ganhariam força com a revolução digital. Sua abordagem destaca que nenhuma atividade econômica ou social está dissociada das infraestruturas tecnológicas, conceito central para compreender cadeias produtivas modernas, logística e competitividade territorial. Essa leitura é particularmente relevante para o agronegócio, onde tecnologia, território e mercado são interdependentes.
Outro eixo fundamental de sua obra é a compreensão do espaço como agente ativo. Para o autor, o território não é apenas cenário, mas componente estruturante das relações sociais e econômicas. Essa perspectiva contribui diretamente para análises sobre uso da terra, urbanização, mobilidade e distribuição de recursos, elementos essenciais para políticas públicas e estratégias empresariais no setor agropecuário.
A atualidade de seu pensamento justifica a denominação do seminário como dedicado a um “geógrafo do século XXI”. Em um contexto de globalização intensiva, mudanças climáticas e transformação digital, suas reflexões oferecem bases teóricas sólidas para interpretar desigualdades regionais e otimizar decisões territoriais, especialmente em economias baseadas em recursos naturais.

integridade e independência – Foto: Acervo pessoal da família

completaria 100 anos em maio de 2026
Foto: Itaú Cultural

1948, optando pela geografia, área em que se
destacou internacionalmente após concluir
doutorado na Universidade de Estrasburgo
Trajetória, reconhecimento e produção científica
Nascido em Brotas de Macaúbas, em 3 de maio de 1926, na região da Chapada Diamantina, na Bahia, a 580 quilômetros da capital do estado, Salvador, Milton Santos construiu uma trajetória marcada por excelência acadêmica e engajamento intelectual. Formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia – UFBA, optou pela geografia, área em que se destacou internacionalmente após concluir doutorado na Universidade de Estrasburgo. Sua atuação também incluiu o jornalismo, com contribuições relevantes para o debate público.
O período de exílio após o golpe de 1964 ampliou sua experiência internacional, consolidando uma visão global das dinâmicas territoriais. Ao retornar ao Brasil, ingressou como professor titular na USP, onde aprofundou suas pesquisas e formou gerações de especialistas. Em 1994, recebeu o Prêmio Vautrin Lud, considerado o mais importante reconhecimento mundial na área.
Autor de mais de 40 obras, entre elas A Natureza do Espaço e Por uma Outra Globalização, Milton Santos construiu um legado que combina rigor teórico e aplicação prática. Seus estudos permanecem essenciais para análises estratégicas sobre desenvolvimento regional, competitividade e sustentabilidade, temas centrais para o agronegócio contemporâneo.

reunindo especialistas internacionais na USP que
discutirão geografia e globalização
Impacto institucional e preservação do conhecimento
O impacto da obra de Milton Santos também se reflete na preservação e utilização de seus acervos, disponíveis no Instituto de Estudos Brasileiros – IEB e na – Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP – BBM. Esses arquivos têm impulsionado novas pesquisas e interpretações, consolidando o autor como referência permanente para estudos territoriais e socioeconômicos. A iniciativa de visitas guiadas durante o seminário reforça a importância da memória acadêmica como ativo estratégico.
A estrutura do evento, que inclui conferências, mesas-redondas e rodas de conversa, amplia o diálogo entre academia e sociedade. Esse formato favorece a construção coletiva do conhecimento e estimula a aplicação prática das teorias discutidas, especialmente em setores produtivos. No contexto do agronegócio, essa interação contribui para integrar ciência, gestão territorial e inovação tecnológica.
Ao ultrapassar os limites acadêmicos, Milton Santos consolidou-se também como figura intelectual de grande integridade e independência. Sua postura crítica e compromisso com a liberdade de pensamento reforçam a relevância de sua obra em ambientes que demandam visão estratégica, ética e capacidade analítica diante de cenários complexos e em constante transformação. O Seminário Internacional “Milton Santos 100 Anos – Um Geógrafo do Século XXI” é promovido pelo IEB, em parceria com o Departamento de Geografia da FFLCH e o Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana, também da FFLCH, com transmissão ao vivo pelo canal do IEB na plataforma YouTube.
