Pesquisa do Inpa sobre florestas culturais na Amazônia vence o Prêmio Capes de Tese 2026 e revela três mil anos de manejo humano no bioma
A amazônia deixou de ser vista como floresta intocada. Estudos das últimas décadas mostram que povos indígenas moldaram a paisagem por milhares de anos, e essa história agora ganha reconhecimento nacional. A bióloga Mariana Franco Cassino, egressa dos cursos de mestrado e doutorado em Botânica do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), venceu o Prêmio Capes de Tese 2026 na área de Biodiversidade com uma pesquisa que propõe um novo olhar sobre a domesticação da floresta. O trabalho une ciência e saberes indígenas para compreender como humanos e não humanos constroem paisagens ao longo do tempo.
Intitulada “Gente, plantas, animais e outros seres: uma abordagem multi-perspectiva das paisagens culturais amazônicas”, a tese investiga um mosaico de florestas culturais com pelo menos três mil anos de ocupação humana na Amazônia Central. O foco empírico é o sítio arqueológico Ponta da Castanha, na Floresta Nacional de Tefé, onde o trabalho de campo combinou botânica, arqueologia, ecologia e antropologia. A pesquisa rompe com a dicotomia entre natureza e cultura ao demonstrar que as comunidades vegetais atuais carregam marcas profundas da ação humana ao longo dos séculos.
Para a pesquisadora, o prêmio representa a legitimação de um trabalho coletivo, construído com muitas ideias compartilhadas e sob a influência do pensamento de colegas indígenas. A abordagem transdisciplinar incorpora também as epistemologias originárias, reconhecendo que compreender a amazônia exige levar a sério os mundos que a habitam. Trata-se de um avanço conceitual com implicações diretas para a conservação, a valorização da floresta em pé e o uso sustentável da biodiversidade.

pelos rios da Amazônia Central em busca de vestígios de
florestas culturais, tema da tese premiada pela Capes

manejo humano, revelados pela pesquisa arqueológica e botânica
Florestas culturais: três mil anos de manejo humano revelados
Os resultados obtidos no sítio Ponta da Castanha mostram que as populações amazônicas favoreceram uma ampla diversidade de plantas alimentícias desde o início da ocupação humana no bioma. Mandioca, pupunha, frutas e palmeiras aparecem como legado de escolhas feitas por gerações sucessivas de agricultores e coletores. A diversidade observada hoje na floresta não é mero acaso da natureza, mas consequência direta de práticas milenares de manejo e seleção de espécies úteis.
Outra contribuição central da tese é a proposta de tratar as comunidades vegetais do presente como artefatos culturais, parte integrante da pesquisa arqueológica. Ao mesmo tempo, o estudo demonstra que as comunidades humanas geram heterogeneidade na paisagem, criando mosaicos com diversidade funcional que ampliam a oferta de recursos. Essa leitura altera a forma como os cientistas interpretam os ecossistemas, integrando passado, presente e futuro no mesmo território de análise.
Nas paisagens culturais amazônicas, a ação humana mostra-se inseparável da ação de plantas, animais e seres imateriais. Essa conclusão convida a ciência a dialogar com mundos historicamente ignorados pelos métodos ocidentais de pesquisa. O conhecimento tradicional deixa de ser folclore e passa a ser fonte de hipóteses, capaz de orientar políticas públicas, restauração de áreas degradadas e estratégias de conservação em larga escala.

mosaico de florestas culturais analisado pela pesquisa premiada
Reconhecimento que conecta ciência, inovação e conservação
O Prêmio Capes de Tese é a mais importante honraria da pós-graduação brasileira e contemplou, em 2026, cinquenta trabalhos defendidos em 2025. A vitória na área de Biodiversidade colocou Mariana Cassino entre as finalistas do Grande Prêmio, cujo resultado será anunciado em novembro. A concorrência ocorre na grande área das Ciências Biológicas, ampliando a visibilidade de uma pesquisa formada na rede de pós-graduação instalada na amazônia.
O estudo contou com ampla rede de colaboração, reunindo o Inpa, o Instituto Mamirauá, o Museu da Amazônia, a Universidade Federal do Oeste do Pará e a Universidade Pompeu Fabra, na Espanha, onde a autora cursou o doutorado em regime de cotutela. Essa estrutura demonstra que a ciência de fronteira exige articulação entre instituições de diferentes escalas e países. A integração entre pesquisa básica e saberes locais é o que permite avançar na compreensão dos sistemas socioecológicos amazônicos.
Para o agronegócio e o meio ambiente, a relevância do trabalho vai além do mérito acadêmico. Compreender as florestas como construção cultural valoriza cadeias produtivas ligadas à sociobiodiversidade, aos produtos florestais não madeireiros e ao turismo comunitário. O reconhecimento da tese sinaliza um caminho promissor para conciliar produção, ciência e conservação na amazônia, atraindo investimentos e talentos e inspirando novas gerações de pesquisadores na região.