Confirmação do vírus em granja de perus no oeste catarinense determina emergência em quatro municípios, sacrifício sanitário de seis mil aves e restrições comerciais
A avicultura brasileira vive um episódio que combina sanidade, reputação e comércio internacional. O Ministério da Agricultura e Pecuária confirmou um foco de Doença de Newcastle em uma granja comercial de perus no município de Nova Itaberaba, no oeste de Santa Catarina, região próxima a Chapecó. O estabelecimento, integrado a uma das empresas do setor, mantinha cerca de 6 mil aves de corte, que nunca saíram da propriedade desde o alojamento. A constatação veio por meio da vigilância sanitária ativa do serviço veterinário oficial, com confirmação laboratorial no dia 18 de outubro e anúncio público no dia seguinte.
Na prática, a resposta institucional foi imediata. Em portaria publicada em edição extra do Diário Oficial da União, o MAPA declarou emergência zoossanitária em quatro municípios catarinenses, com validade de 60 dias, o nível mais elevado de alerta sanitário do país. A medida permite agilidade nas ações de enfrentamento e articulação entre os governos federal e estadual. Trata-se do segundo registro da doença na avicultura comercial brasileira: o primeiro ocorreu em julho de 2024, em Anta Gorda, no Rio Grande do Sul, episódio encerrado oficialmente pela Organização Mundial de Saúde Animal cerca de 90 dias depois.
Ao redor do episódio sanitário, formou-se uma frente comercial de consequências materiais. O México suspendeu as importações de produtos avícolas brasileiros, e a China, maior comprador do frango nacional, restringiu os embarques de Santa Catarina. O estado responde por 23,3% das exportações brasileiras de carne de frango, segundo a ABPA, e a cadeia produtiva do oeste catarinense concentra granjas integradas e indústrias de grande porte. Enquanto o setor defende protocolos de regionalização para limitar os danos, as consultorias de mercado já calculam receitas em risco e calendários de retomada para os próximos meses.

vigilância ativa como a desinfecção de veículos na entrada
de granja, ação prevista no plano de contingência oficial
Plano de contingência em campo: da detecção à extinção do foco
A cronologia oficial revela um sistema em funcionamento. As primeiras coletas foram realizadas em 21 de setembro, dentro da vigilância ativa executada pelo serviço veterinário oficial, ainda sem suspeita prévia, pois os animais não apresentavam sinais clínicos. Um resultado inicial, em 14 de outubro, indicou necessidade de investigação complementar, e a confirmação laboratorial ocorreu na noite de domingo, dia 18. Na segunda-feira seguinte, o Ministério da Agricultura apresentou o conjunto das medidas em coletiva, com comunicação simultânea à Organização Mundial de Saúde Animal e aos parceiros comerciais do Brasil, como determinam os compromissos de transparência sanitária.
No terreno, o protocolo segue o Plano de Contingência para Influenza Aviária e Doença de Newcastle. O estabelecimento foi interditado, a movimentação de aves suspensa e o plantel será depopulado, seguido de limpeza e desinfecção das instalações. A partir desse ciclo, começa a contar o prazo de 42 dias para a extinção oficial do foco, etapa que habilita o pleito de retorno ao status de área livre junto à OMSA em até 90 dias. As análises correm no Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo, reconhecido internacionalmente como referência para o diagnóstico da doença.
A área de restrição alcança um raio de aproximadamente 10 quilômetros ao redor do foco e envolve os municípios de Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim. Nessa região estão 133 granjas comerciais que serão visitadas por equipes técnicas, com avaliações clínicas e coleta de amostras para análise laboratorial. O governo catarinense, por meio da Cidasc, intensificou a vigilância em populações de aves silvestres e emitiu nota técnica recomendando o reforço da biosseguridade em todas as granjas. Autoridades admitem ainda um período de hipersensibilidade do sistema, com tendência de mais notificações de casos suspeitos.

Avaliação clínica rotineira integra as ações de biosseguridade
Anatomia do risco: vírus circulante, biosseguridade e saúde humana
A doença de Newcastle é causada pelo paramixovírus aviário do sorotipo 1, altamente contagioso entre aves domésticas e silvestres. Os sinais clínicos típicos envolvem manifestações respiratórias, nervosas e digestivas, e a mortalidade pode chegar a 100% do plantel, sem tratamento disponível. Por isso, a enfermidade integra a lista de notificação obrigatória à Organização Mundial de Saúde Animal, e o lote infectado é eliminado para impedir a propagação entre propriedades. A gravidade do quadro explica a resposta institucional rápida, que combina contenção, erradicação e comunicação técnica a mercados e organismos internacionais. Nas criações comerciais, a detecção precoce depende de vigilância permanente e amostragem sistemática.
A principal via de transmissão ocorre por aerossóis das secreções respiratórias e pelas fezes de aves infectadas, o que torna o controle de trânsito de pessoas, veículos e equipamentos decisivo. O vírus circula em populações de aves silvestres no país e, em algum momento, rompeu a barreira de biosseguridade da granja catarinense. Um detalhe técnico pesa a favor do setor: foi detectada a presença do vírus, sem manifestação da doença nos animais confinados, e nenhuma ave saiu da propriedade. Essa combinação reduz a probabilidade de disseminação e sustenta a leitura de caso isolado defendida pelas entidades do setor.
Em relação às pessoas, os dados técnicos tranquilizam o consumidor. A infecção humana é rara e se limita a uma conjuntivite leve após contato direto com secreções de aves doentes, sem transmissão pelo consumo de carnes e derivados. O Ministério da Agricultura e as entidades setoriais destacam que os produtos inspecionados pelo serviço veterinário oficial permanecem seguros e sem contraindicações. A nota conjunta das organizações catarinenses sintetiza o entendimento: o episódio é uma questão de sanidade animal, restrita à produção, e não de segurança dos alimentos, mensagem que orienta a comunicação governamentais e das indústrias.

Mercado externo concentra a maior receita do setor
Frente comercial: suspensões, receitas em risco e regionalização
A repercussão comercial veio em sequência rápida. O México suspendeu as importações de carne de ave e miúdos, aves canoras e ornamentais, ovos férteis e pintinhos de até três dias, inclusive produtos transportados por viajantes. O peso da medida é evidente: as compras mexicanas de peito de frango desossado brasileiro saltaram de 90 mil toneladas em 2022 para 196 mil toneladas em 2025, segundo dados oficiais do país. A China, por sua vez, restringiu as importações catarinenses, e o Chile integra a lista de mercados com interrupção automática de exportações prevista em protocolo sanitário bilateral.
As contas do episódio começam a ser dimensionadas. Segundo especialistas, as restrições colocam em risco 55,7 mil toneladas de carne de frango, equivalentes a US$ 138,7 milhões em embarques. China e México responderam por 18% da receita brasileira com frango in natura entre janeiro e setembro de 2026, com contratos acima da média: US$ 2.581 por tonelada para o mercado asiático e US$ 2.206 para o mexicano, contra US$ 1.966 de média geral. A projeção aponta retomada nacional em novembro, mas Santa Catarina pode enfrentar uma segunda etapa de perdas. Se a exclusão estadual persistir, a perda mensal seria de US$ 34,1 milhões.
O perfil catarinense explica a magnitude do alerta. O estado é o segundo maior exportador de frango do país, atrás apenas do Paraná, e a produção nacional de peru somou 136,7 mil toneladas em 2025, com vendas externas de 65,8 mil toneladas para 88 países. A ABPA afirma que o abastecimento interno está garantido para as festas de fim de ano, com estoques e redirecionamento de volumes. No mercado de capitais, papéis de grandes exportadoras recuaram após o anúncio. A resposta esperada inclui regionalização das restrições, negociação conduzida pelo Ministério da Agricultura e retomada gradual dos certificados, enquanto os protocolos bilaterais preservam a confiabilidade da sanidade brasileira.