Verão eleva risco de acidentes com animias peçonhentos

Durante o verão, o número de acidentes envolvendo picadas de cobras e aranhas tende a aumentar, principalmente em áreas de mata, trilhas e cachoeiras. O calor intenso, combinado com as chuvas frequentes, cria um ambiente propício para esses animais peçonhentos se tornarem mais ativos, uma vez que seus abrigos naturais são inundados, forçando-os a buscar novos locais, o que eleva o risco de encontros inesperados com seres humanos. Além disso, o aumento das atividades ao ar livre durante a estação faz com que as pessoas fiquem mais expostas a esses perigos naturais, exigindo maior atenção e cuidados preventivos. A maior parte dos casos acontece na zona rural. No meio urbano, esse aumento no volume de água durante as chuvas desaloja escorpiões que vivem em redes de esgoto, que acabam invadindo residências em busca de abrigo.

Os principais fatores que levam ao aumento desses acidentes estão relacionados à maior movimentação das pessoas nessas áreas naturais e ao comportamento dos próprios animais. No verão, as pessoas saem mais de casa e vão frequentar locais onde esses animais vivem naturalmente. Além das chuvas intensas poderem inundar seus abrigos, forçando-os a se deslocar para áreas secas, o que facilita um eventual encontro com humanos, o calor acelera o metabolismo desses animais, fazendo com que saiam mais à procura de alimento.

No Brasil, existem três espécies de aranhas consideradas de interesse médico: viúva-negra (Latrodectus sp.), aranha-marrom (Loxosceles laeta) e armadeira (Phoneutria sp.). Diferenciá-las de outras não venenosas pode ser difícil no momento do acidente, por isso é fundamental procurar assistência médica. Aranhas caranguejeiras, apesar do aspecto assustador, possuem picadas dolorosas, mas inofensivas para humanos.

Aranha marrom (Loxosceles laeta)
Aranha marrom (Loxosceles laeta)

Essa época também propicia acidentes com escorpiões, especialmente o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus) e o escorpião-marrom (Tityus bahiensis). Após a picada desses animais, o sintoma mais frequente é dor intensa no local, ardência, sensação de agulhadas e inflamação. Em situações de maior gravidade, podem surgir náuseas, suor excessivo, agitação e alterações nos batimentos cardíacos e na respiração. Crianças de até 10 anos estão entre as mais vulneráveis a quadros graves, que podem provocar vômito abundante, suor intenso e choro contínuo, com possibilidade de rápida evolução.

Já entre as cobras, as que apresentam maior perigo são as jararacas, cascavéis e corais. Seus venenos podem ter efeitos proteolíticos (destroem proteínas e tecidos, causando necrose e inflamação), hemolíticos (rompem glóbulos vermelhos, levando à anemia e urina avermelhada) e neurotóxicos (afetam o sistema nervoso, podendo causar paralisia e insuficiência respiratória), causando danos graves ao organismo.

Um levantamento da Sesa – Secretaria de Estado da Saúde do Paraná, com base em dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), aponta que nos últimos anos foram registrados 910 casos de acidentes com serpentes em 2023 e 918 em 2024. Em 2025, dados preliminares apontam 863 acidentes, sendo a maior parte registrada na zona rural, com 680 ocorrências. A zona urbana contabilizou 171 casos, enquanto a área periurbana teve 12 registros.

Jararacuçu (Bothrops jararacussu)
Jararacuçu (Bothrops jararacussu)

Cerca de 85% dos casos notificados são atribuídos às serpentes do gênero Bothrops (Jararaca, Urutu, Jararacuçu, Cotiara e Caiçara); 12% ao gênero Crotalus (Cascavel); 3% provocados por Micrurus (Coral verdadeira). Cerca de 70% dos pacientes são do sexo masculino. Em aproximadamente 53% das notificações, a faixa etária acometida acontece entre 15 e 49 anos, que corresponde ao grupo de idade onde se concentra a força de trabalho.

Em casos de picadas, exames laboratoriais são fundamentais para avaliar a gravidade da intoxicação. Os principais exames solicitados incluem hemograma, eletrólitos, função renal, exames de coagulação e urina. A presença de urina avermelhada pode indicar hemólise, uma das complicações do veneno. São exames simples, disponíveis na maioria dos hospitais, e são essenciais para guiar o tratamento correto.

Caso ocorra um acidente, manter a calma é essencial. O risco de morte não é iminente, então é possível procurar ajuda especializada com segurança. Os primeiros socorros incluem lavar o local da picada com água e sabão de forma abundante para reduzir o risco de infecção, imobilizar o membro afetado para evitar a disseminação do veneno, manter a vítima deitada, hidratada e buscar o serviço de saúde mais próximo rapidamente. Se possível, não mate o animal, e com segurança, leve uma foto ou o próprio animal para facilitar a identificação e a escolha do tratamento correto por parte do agente de saúde. Não se deve fazer torniquete ou garrote, tentar sugar o veneno, nem cortar, perfurar ou espremer o local da picada. A aplicação de soluções caseiras como pó de café ou ervas, folhas, álcool ou urina é contraindicada e pode causar infecções agravando os danos teciduais.

Escorpião amarelo (Tityus serrulatus)
Escorpião amarelo (Tityus serrulatus)

Prevenção é a melhor estratégia para evitar picadas. Para isso, é importante evitar colocar as mãos em buracos, troncos ocos ou sob pedras, usar botas de cano alto ao caminhar por trilhas, matas, jardins ou na agricultura, pode evitar cerca de 80% dos acidentes, além de manter terrenos, quintais, jardins e áreas de serviço limpos, sem acúmulo de entulho ou restos de construção, para impedir que esses animais encontrem abrigo. Cerca de 15% das picadas atingem mãos e antebraços e por isso o uso de luvas de aparas de couro é indicado para manipular folhas secas, montes de lixo, lenha e palhas, por exemplo.

Como as cobras costumam se esconder em locais quentes, escuros e úmidos, é importante redobrar a atenção ao manusear lenha e palha, bem como ao mexer em paióis e cupinzeiros. Controlar pragas como ratos e baratas também é essencial, pois esses animais atraem cobras e escorpiões. Além disso, é fundamental verificar sapatos e roupas antes de vestir, pois aranhas e escorpiões podem se esconder nessas peças. Vede frestas em paredes e pisos, use telas em ralos e batentes de portas. Outro ponto importante é evitar o uso de venenos comuns para tentar eliminar os escorpiões. Esses produtos muitas vezes não matam o escorpião, apenas o desalojam, aumentando o risco de acidentes. Com informação e prevenção, é possível aproveitar as trilhas, cachoeiras, matas, parques e jardins com mais segurança, reduzindo os riscos de encontros indesejados com animais peçonhentos.

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