Plataforma que mostra rotas de aves migratórias é lançada na COP15

Lançado durante a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15), realizada em Campo Grande, o Atlas de Rotas Migratórias das Américas consolida-se como uma ferramenta estratégica inédita para o mapeamento de rotas, áreas de parada e zonas críticas de conservação de 89 espécies vulneráveis de aves migratórias. Disponível em ambiente digital interativo, o atlas representa o primeiro esforço estruturado dedicado exclusivamente ao continente americano, abrangendo desde o Ártico canadense até a Patagônia chilena.

A plataforma introduz um novo patamar de precisão na identificação de corredores ecológicos, permitindo que gestores públicos e privados delimitem com maior assertividade áreas prioritárias para conservação e implementação de unidades protegidas, sejam elas públicas ou privadas. Esse avanço contribui diretamente para o fortalecimento de políticas ambientais baseadas em evidências, além de ampliar a eficiência da cooperação multilateral entre países que compartilham essas rotas migratórias.

Ao revelar, de forma integrada, os pontos críticos para alimentação, descanso e reprodução das espécies, o atlas evidencia que a manutenção da conectividade ecológica transfronteiriça é condição indispensável para a sobrevivência das aves migratórias. Nesse contexto, a ferramenta se posiciona como um divisor de águas, ao oferecer subsídios técnicos consistentes para a adesão e fortalecimento de compromissos internacionais de conservação.

Interface do Atlas de Rotas Migratórias das Américas
Interface do Atlas de Rotas Migratórias das Américas
Principais rotas de migração de aves nas Américas. Milhões de espécies voam entre a América do Norte e a América do Sul, enfrentando inúmeros desafios ao longo do caminho
Principais rotas de migração de aves nas Américas. Milhões
de espécies voam entre a América do Norte e a América do
Sul, enfrentando inúmeros desafios ao longo do caminho

Impactos no licenciamento ambiental e no uso sustentável do território

No âmbito do agronegócio e da infraestrutura, o Atlas de Rotas Migratórias das Américas surge como um instrumento relevante para qualificar processos de licenciamento ambiental. Empreendimentos como linhas de transmissão de energia e parques eólicos passam a contar com informações detalhadas sobre Áreas de Concentração de Aves (ACAs), reduzindo riscos associados à instalação inadequada de estruturas que possam provocar altas taxas de mortalidade de aves e morcegos.

A visualização interativa das rotas por espécie e por período do ano permite que decisões locacionais sejam tomadas com base em critérios técnicos robustos, contribuindo para mitigar impactos ambientais e aumentar a sustentabilidade de projetos de infraestrutura energética. Trata-se de uma evolução importante na integração entre desenvolvimento econômico e conservação da biodiversidade, especialmente em regiões de expansão agroindustrial.

Além do uso institucional, a ferramenta também amplia possibilidades para o turismo sustentável e a educação ambiental. Observadores de aves e operadores turísticos podem acessar informações sobre sazonalidade e distribuição das espécies, fortalecendo atividades econômicas alinhadas à conservação. Esse aspecto reforça o potencial do atlas como instrumento de democratização do conhecimento e engajamento social na proteção da biodiversidade.

A mariquita-azul (Setophaga cerulea) é uma pequena espécie que se reproduz na América do Norte e inverna na América do Sul - Foto: Luke Seitz/Cornell Lab of Ornithology
A mariquita-azul (Setophaga cerulea) é uma pequena
espécie que se reproduz na América do Norte e inverna na
América do Sul – Foto: Luke Seitz/Cornell Lab of Ornithology
Maçarico-semipalmado (Calidris pusilla), espécie migratória de longa distância quase ameaçada, que enfrenta declínios contínuos, porém pouco compreendidos
Maçarico-semipalmado (Calidris pusilla), espécie migratória
de longa distância quase ameaçada, que enfrenta
declínios contínuos, porém pouco compreendidos
O maçarico-de-bico-comprido ou bico-virado (Limosa haemastica), é uma ave limícola vulnerável que se reproduz no Ártico e depende de uma cadeia de locais de paragem sensíveis durante a sua notável migração hemisférica - Foto: Brad M. Walker
O maçarico-de-bico-comprido ou bico-virado
(Limosa haemastica), é uma ave limícola vulnerável
que se reproduz no Ártico e depende de uma cadeia
de locais de paragem sensíveis durante a sua
notável migração hemisférica – Foto: Brad M. Walker

Base de dados robusta e cooperação internacional

A consistência do atlas está diretamente relacionada à sua base de dados, construída a partir de milhões de registros provenientes da plataforma eBird, um dos maiores repositórios globais de ciência cidadã. A expectativa é que o sistema evolua para contemplar até 622 espécies distribuídas em 56 países, ampliando significativamente o alcance das análises e aplicações práticas.

Os dados já disponíveis evidenciam um cenário preocupante. De acordo com o relatório Estado das Espécies Migratórias do Mundo (2024), 26 espécies de aves migratórias encontram-se sob alto risco de extinção, enquanto 18 espécies costeiras enfrentam declínio populacional severo. Além disso, 47% das áreas essenciais para essas aves ainda não possuem algum tipo de proteção formal, o que reforça a urgência de ações coordenadas.

Espécies como o maçarico-de-peito-amarelo (Calidris subruficollis) e o maçarico-de-bico-virado (Limosa haemastica) exemplificam os impactos diretos da perda de habitat ao longo das rotas migratórias. Outro caso relevante é o do pássaro-preto-de-veste-amarela (Xanthopsar flavus), cuja distribuição inclui o Sul do Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai, e que apresenta declínio populacional acentuado, estando listado como ameaçado na Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS, na sigla em inglês).

Maçarico-de-peito-amarelo (Calidris subruficollis) se reproduz na América do Norte e é uma espécie migradora de longa distância, migrando até o sul do Brasil, entre os países, durante o inverno - Foto: Andres Teran
Maçarico-de-peito-amarelo (Calidris subruficollis) se reproduz
na América do Norte e é uma espécie migradora de longa
distância, migrando até o sul do Brasil, entre os países,
durante o inverno – Foto: Andres Teran
A andorinha-azul (Progne subis), cuja população estimada é de 7,5 milhões de indivíduos, se reproduz no leste dos Estados Unidos, mas volta e passa a maior parte do ano na Amazônia, onde são contaminadas por mercúrio da mineração. Estudo atestou o acúmulo do metal nas penas - Foto: Michel Lamarche
A andorinha-azul (Progne subis), cuja população estimada
é de 7,5 milhões de indivíduos, se reproduz no leste dos
Estados Unidos, mas volta e passa a maior parte do ano
na Amazônia, onde são contaminadas por mercúrio da
mineração. Estudo atestou o acúmulo do metal nas penas
Foto: Michel Lamarche
O veste-amarela ou pássaro-preto-de-veste-amarela (Xanthopsar flavus) em sua jornada passa pelo sul do Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai
O veste-amarela ou pássaro-preto-de-veste-amarela
(Xanthopsar flavus) em sua jornada passa pelo sul
do Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai

Desenvolvido por meio de uma parceria entre o Centro de Estudos de Populações de Aves do Laboratório de Ornitologia da Universidade de Cornell, o secretariado da CMS, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos, o atlas demonstra o potencial da integração entre ciência, tecnologia e participação social na geração de inteligência aplicada à conservação. Estima-se que mais de 2 bilhões de observadores de aves contribuam globalmente para esse tipo de base de dados, consolidando a ciência cidadã como vetor estratégico.

Ao posicionar o Brasil no centro das principais rotas migratórias — Atlântica, Pacífica e Interior —, a ferramenta reforça o papel do país como território-chave para a conservação hemisférica, exigindo alinhamento entre políticas públicas, planejamento territorial e práticas produtivas sustentáveis. Nesse cenário, o atlas não apenas amplia a compreensão científica sobre as migrações, mas também orienta decisões críticas para garantir equilíbrio entre produção, infraestrutura e preservação ambiental nas Américas.

Acesse o Atlas de Rotas Migratórias das Américas CLICANDO AQUI.

Leia também: