Ciência – O código da vida: edição genética na conservação de espécies ameaçadas

A biotecnologia aplicada à conservação avança em ritmo acelerado. Ferramentas de edição genética, como o CRISPR-Cas9, estão permitindo que cientistas alterem, reparem ou reproduzam trechos específicos do DNA de plantas e animais, tornando possível corrigir mutações perigosas, fortalecer espécies ameaçadas e até restaurar funções perdidas pela degradação ambiental.

Em centros de pesquisa do Brasil e do mundo, essa revolução silenciosa já está em curso. A meta é ousada: usar o código genético como uma nova ferramenta de preservação da vida, uma aliada no combate à extinção e às mudanças climáticas.

O olmo americano (Ulmus americana) atacado pelo fungo invasor (Ophiostoma ulmi)
O olmo americano (Ulmus americana) atacado
pelo fungo invasor (Ophiostoma ulmi)

Como funciona a “edição” da natureza

A edição genética permite identificar um gene defeituoso ou frágil e substituí-lo por outro mais saudável, ou até inserir características desejáveis, como resistência a doenças. O processo é muito mais preciso do que o antigo cruzamento artificial e pode ser aplicado em laboratório, com resultados rápidos e reprodutíveis.

No campo da conservação, essa técnica vem sendo usada para reforçar a diversidade genética de espécies com populações muito pequenas, como o bisão americano (Bison bison), o diabo-da-tasmânia (Sarcophilus harrisii) e a árvore olmo (Ulmus americana), dizimada por um fungo invasor (Ophiostoma ulmi). No Brasil, pesquisadores já estudam a possibilidade de aplicar o mesmo princípio a espécies da flora nativa e a peixes ameaçados da Amazônia e do Rio São Francisco.

A fronteira entre salvar e recriar

Bisão americano (Bison bison)
Bisão americano (Bison bison)

Mas até onde podemos ir ao manipular o DNA de um ser vivo? O debate ético é inevitável. Para especialistas, o maior risco é confundir conservação com “ressurreição” de espécies, como no caso das tentativas de recriar o mamute-lanoso (Mammuthus primigenius) a partir do DNA de elefantes modernos.

Ainda assim, muitos cientistas defendem que a edição genética é um recurso complementar, e não substituto da conservação tradicional. Ela pode ajudar a corrigir falhas genéticas de populações isoladas, ampliar a fertilidade e fortalecer organismos para enfrentar novas doenças (problemas cada vez mais comuns em ecossistemas fragmentados).

O elo com o campo e a produção rural

A biotecnologia voltada à conservação também desperta interesse no agronegócio sustentável. Espécies nativas geneticamente fortalecidas podem ajudar a restaurar áreas degradadas, controlar pragas naturalmente e manter serviços ecossistêmicos essenciais, como a polinização e o equilíbrio hídrico.

Mamute-lanoso (Mammuthus primigenius)
Mamute-lanoso (Mammuthus primigenius)

Além disso, o avanço da genética em espécies silvestres tende a beneficiar a pecuária, a fruticultura e até a produção de sementes. O mesmo conhecimento usado para proteger uma onça ou um peixe pode, no futuro, gerar variedades agrícolas mais resistentes, reduzindo o uso de defensivos e insumos químicos.

Desafios no horizonte

Apesar dos avanços, a edição genética ainda enfrenta barreiras legais, éticas e econômicas. No Brasil, projetos com animais silvestres exigem autorização rigorosa de órgãos ambientais, e há o desafio de garantir que a tecnologia seja usada com responsabilidade e sem abrir espaço para usos comerciais inadequados.

O que é consenso entre os pesquisadores é que a genética veio para somar forças com a conservação clássica. A ciência avança, mas o respeito à natureza precisa continuar sendo o fio condutor.

A genética a serviço da conservação

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