Ciência avança em projetos de reprodução assistida e clonagem de espécies ameaçadas, e abre caminho para uma nova era da conservação genética
A clonagem da onça-pintada (Panthera onca) em 2024 foi um marco histórico da ciência brasileira e colocou o país definitivamente no mapa da biotecnologia aplicada à conservação. Mas, enquanto os olhos do público se voltavam para o grande felino, nos bastidores dos laboratórios, equipes de pesquisadores já trabalham para ampliar o alcance da técnica a outras espécies nativas, algumas delas ainda mais ameaçadas.
O avanço da biotecnologia conservacionista
Nos últimos cinco anos, instituições como a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, o Reprocon (Rede de Reprodução e Conservação de Espécies Neotropicais) e a Fiocruz intensificaram estudos sobre a preservação genética de mamíferos e aves brasileiras.
A técnica da clonagem — que consiste em criar um organismo geneticamente idêntico a outro, a partir de uma célula doadora — deixou de ser apenas uma curiosidade científica para se tornar uma ferramenta concreta de conservação.
O objetivo não é substituir a natureza, mas salvar o que resta dela. Ao criar cópias genéticas viáveis de indivíduos raros ou mortos, a ciência oferece uma alternativa para reforçar a variabilidade genética de populações em risco, especialmente quando há poucos exemplares férteis disponíveis.

vulnerável, tem células congeladas na Embrapa
Espécies candidatas à clonagem e reprodução assistida
Entre os animais que já têm material genético preservado em biobancos brasileiros estão:
– Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) — símbolo do Cerrado e listado como vulnerável, o lobo-guará tem células congeladas no Banco de Germoplasma Animal da Embrapa. Pesquisadores avaliam o uso da clonagem somática e da fertilização in vitro para fortalecer populações isoladas.
– Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) — a espécie sofre com atropelamentos e perda de habitat. Embriões e tecidos já estão armazenados para futuras técnicas de reprodução assistida.
– Gato-maracajá (Leopardus wiedii) — um dos felinos mais discretos das Américas, é considerado prioritário por apresentar grande perda de diversidade genética.
– Arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) — alvo de programas de conservação no Pantanal, tem ovos e amostras genéticas preservadas em parceria com o Instituto Arara Azul.
– Veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus) e anta brasileira (Tapirus terrestris) — espécies de grande porte que podem se beneficiar do uso de biotecnologia reprodutiva combinada à inseminação artificial e transferência de embriões.

de nitrogênio líquido. As informações biológicas devem
sobreviver por tempo indeterminado e servirão para pesquisas
futuras de conservação e manejo da biodiversidade
Foto: Gustavo Eufigenio Gomes
Segundo o professor Carlos Frederico Martins, da Universidade de Brasília (UnB), o foco atual da pesquisa é construir bancos genéticos diversificados, que sirvam como “seguro biológico” para as próximas décadas:
“Estamos acumulando não só DNA, mas células
vivas, espermatozoides e embriões. Isso nos dá
a chance de reconstituir populações inteiras,
se necessário”, explica o pesquisador.
O Brasil como protagonista global
O país é hoje referência mundial em reprodução assistida de fauna silvestre tropical. Graças à biodiversidade e à competência técnica de centros de pesquisa, o Brasil tem potencial para se tornar exportador de conhecimento genético e tecnologia de preservação. Projetos de intercâmbio com universidades da Argentina e dos Estados Unidos já estão em andamento, com foco em protocolos éticos e de manejo reprodutivo.
Além de benefícios científicos, há impactos econômicos e sociais: a conservação genética pode se tornar uma nova fronteira de bioeconomia, integrando pesquisa, turismo e conservação em áreas privadas e unidades de proteção.

se beneficiar do uso de biotecnologia reprodutiva – Foto: Vitor Marigo
Ética, limites e futuro
Embora o avanço seja promissor, a clonagem ainda desperta debates éticos. Especialistas alertam para os riscos de redução da diversidade genética e da dependência excessiva de soluções laboratoriais. A professora Márcia Duarte, da Fiocruz, ressalta:
“A biotecnologia é uma aliada, não um substituto
da natureza. É preciso equilíbrio entre inovação e
preservação de ecossistemas.”
Mesmo assim, o consenso é claro: a ciência pode e deve ajudar a corrigir parte dos danos causados pelo homem. O Brasil, dono de uma das maiores biodiversidades do planeta, tem a oportunidade de liderar uma nova era da conservação: aquela em que tecnologia e floresta coexistem.
Como funciona a clonagem animal
- Coleta de células: amostras são retiradas de tecidos (geralmente pele) de animais vivos ou mortos recentemente.
- Preservação em biobancos: as células são congeladas em nitrogênio líquido, podendo ser armazenadas por décadas.
- Núcleo transferido: o DNA do animal doador é inserido em um óvulo “vazio” de outra espécie compatível.
- Embrião implantado: o embrião é colocado no útero de uma fêmea receptora, que leva a gestação até o fim.
- Nascimento do clone: o novo indivíduo é geneticamente idêntico ao doador original.
