Crescimento da produção agrícola pressiona infraestrutura e expõe a urgência de ampliar a malha ferroviária para reduzir custos logísticos
O avanço do transporte ferroviário de grãos no Brasil acompanha o ritmo acelerado da produção agrícola, mas ainda enfrenta um entrave estrutural relevante: a insuficiência da malha ferroviária para atender à crescente demanda do agronegócio. Mesmo diante de safras recordes, a logística nacional permanece fortemente concentrada no modal rodoviário, com impacto direto sobre os custos operacionais do setor. Atualmente, o país dispõe de cerca de 30 mil quilômetros de ferrovias, segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), número que se mantém praticamente estagnado há décadas. Além disso, parte significativa dessa malha apresenta baixa utilização ou opera aquém de sua capacidade, evidenciando gargalos históricos em manutenção, modernização e integração logística.
Esse cenário revela um descompasso entre a expansão da produção agrícola e a capacidade de escoamento. Enquanto o campo amplia produtividade e área cultivada, a infraestrutura de transporte não evolui na mesma proporção, comprometendo ganhos de eficiência e competitividade. A limitação ferroviária, nesse contexto, não é apenas quantitativa, mas também qualitativa, envolvendo questões de conectividade, interoperabilidade e acesso aos principais corredores de exportação.

distâncias em caminhões até os portos
Desequilíbrio da matriz e impacto direto nos custos do produtor
A matriz logística brasileira permanece desequilibrada, com predominância do transporte rodoviário, que responde pela maior parte do escoamento da safra. Especialistas indicam que as ferrovias representam menos de 20% da infraestrutura de transporte, enquanto as rodovias concentram a maior parcela da movimentação de cargas. Na prática, isso significa que grandes volumes de grãos percorrem longas distâncias em caminhões até os portos, especialmente a partir de regiões produtoras como o centro-oeste e o Matopiba.
Esse modelo gera custos logísticos mais elevados e maior volatilidade no frete, uma vez que o transporte rodoviário é mais sensível a variáveis como preço do diesel, disponibilidade de frota e condições das estradas. Em contrapartida, o modal ferroviário, quando disponível, oferece ganhos de escala, menor custo por tonelada transportada e maior previsibilidade operacional, fatores estratégicos para a competitividade do agronegócio no mercado global.
Apesar das limitações, o transporte ferroviário vem apresentando crescimento consistente. Em 2025, o volume movimentado atingiu 555,4 milhões de toneladas, impulsionado principalmente pelo agronegócio, em um contexto de safra recorde superior a 346 milhões de toneladas, conforme dados do IBGE. Ainda assim, esse avanço ocorre sobre uma base estrutural limitada, o que impede uma mudança mais significativa na matriz logística nacional.

fundamentais para consolidar novos corredores de exportação
Investimentos, projetos estruturantes e desafios de execução
A ampliação da malha ferroviária brasileira está no centro das estratégias para aumentar a eficiência logística do agronegócio. Entre os principais projetos estruturantes, destacam-se iniciativas como a Ferrogrão, que visa conectar o Mato Grosso aos portos do Pará, a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (FICO) e a Ferrovia de Mato Grosso, esta última com aproximadamente 743 quilômetros em construção. Esses empreendimentos são considerados fundamentais para consolidar novos corredores de exportação e reduzir a dependência do transporte rodoviário.
Além disso, o governo federal prevê a realização de leilões que podem viabilizar mais de 9 mil quilômetros adicionais de ferrovias, com investimentos estimados em cerca de R$ 140 bilhões. No entanto, grande parte desses projetos ainda se encontra em fases iniciais, como planejamento, licenciamento ambiental ou execução preliminar, o que indica que os impactos práticos sobre o escoamento da produção ocorrerão de forma gradual ao longo dos próximos anos.
Para especialistas, o Brasil precisaria praticamente dobrar sua capacidade ferroviária para equilibrar a matriz de transporte e reduzir de forma consistente os custos logísticos no campo. Atualmente, mesmo com avanços recentes, as ferrovias respondem por cerca de um quarto do transporte de cargas, mantendo o produtor rural ainda altamente dependente do transporte rodoviário, sobretudo na etapa inicial de deslocamento da produção.
Nesse contexto, o avanço das ferrovias representa uma agenda estratégica para o país, especialmente em regiões distantes dos portos. Contudo, até que os novos corredores estejam plenamente operacionais, o crescimento contínuo da produção agrícola seguirá pressionando a infraestrutura existente. Para o agronegócio brasileiro, o desafio já não reside apenas em produzir mais, mas em garantir eficiência logística, redução de custos e competitividade internacional no escoamento da produção.