Recuperação de pastagens pode aumentar carbono do solo

O Brasil dispõe de mais de 100 milhões de hectares de pastagens degradadas, cerca de dois terços da área atual, aptos à reconversão produtiva, o que permite ampliar a produção agropecuária nas próximas décadas sem necessidade de abertura de novas áreas. Entretanto, o crescimento da demanda por alimentos exigirá elevação consistente da produtividade por hectare, condição essencial para evitar pressão sobre ecossistemas nativos. No contexto global, projeta-se que a agricultura precisará expandir até 2050 sem avanço adicional sobre habitats naturais, o que torna indispensável a intensificação sustentável e a otimização do uso de áreas já antropizadas.

O estudo Soil Carbon Debt from Land Use Change in Brazil, publicado em janeiro de 2026 na Nature Communications, demonstra que a recuperação de pastagens degradadas é uma das estratégias mais eficientes para recompor estoques de carbono orgânico do solo. A pesquisa estima que o país apresenta dívida de carbono de aproximadamente 1,4 bilhão de toneladas na camada de 0–30 cm, decorrente da conversão histórica de vegetação nativa para atividades agropecuárias. O trabalho foi conduzido pelo Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON/Esalq-USP), com participação da Embrapa Agricultura Digital e da UEPG.

Produtor iniciando o trabalho de recuperação de pastagem degradada com trator e grade
Produtor iniciando o trabalho de recuperação
de pastagem degradada com trator e grade

Segundo os autores, a reforma de pastagens pode elevar entre 14% e 23% os estoques de carbono do solo, dependendo da região e do manejo adotado. A chamada recarbonização parcial das áreas agrícolas surge como instrumento direto para o cumprimento das metas climáticas brasileiras, podendo reduzir de 59% a 67% das emissões projetadas até 2035 caso cerca de um terço do potencial nacional seja recuperado.

Biomas estratégicos apresentam elevado potencial de mitigação. A Mata Atlântica concentra cerca de 20 milhões de hectares de pastagens degradadas, enquanto o Cerrado, base da pecuária nacional, reúne grande capacidade de sequestro adicional de carbono. A pesquisa destaca o papel das forrageiras de alta produtividade e raízes profundas (até 4 m), capazes de aumentar o aporte de carbono em camadas subsuperficiais, além de oferecer alto teor de proteína, rápida rebrota pós-pastejo e maior tolerância à seca, garantindo estabilidade produtiva sob variabilidade climática.

Conter graves consequências climáticas e perda de biodiversidade, envolve intensificar os modelos de produção e otimizar o uso de terras já desmatadas e degradadas porém, é tecnicamente possível recuperá-las e devolvê-las à produção ou aumentar sua utilização
Conter graves consequências climáticas e perda de
biodiversidade, envolve intensificar os modelos de
produção e otimizar o uso de terras já desmatadas e
degradadas porém, é tecnicamente possível recuperá-las
e devolvê-las à produção ou aumentar sua utilização

A intensificação de pastagens deve ser compreendida como estratégia agronômica e climática simultaneamente. Sistemas bem manejados permitem produzir mais carne e leite na mesma área, elevam a fertilidade, melhoram a retenção hídrica e reduzem a pressão por desmatamento. O estudo evidencia ainda que monoculturas agrícolas foram as que mais reduziram carbono do solo, enquanto sistemas integrados e diversificados apresentaram menor impacto, reforçando a relevância de tecnologias como reforma de pasto, manejo rotacionado e integração lavoura-pecuária-floresta.

Atualmente, grande parte das pastagens brasileiras opera abaixo de seu potencial produtivo. Contudo, com investimento em correção de solo, manejo e genética forrageira superior, áreas degradadas podem ser convertidas em ativos produtivos e ambientais. Além do ganho de produtividade e rentabilidade, essas áreas passam a representar oportunidade econômica no mercado de carbono e diferencial competitivo na produção de proteína de baixa pegada ambiental.

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