Há 22 anos no Marco Zero, a ópera popular é encenada de 23 a 25 deste mês no Recife, fazendo contraponto à influência estrangeira
Dos 42 anos de história, 22 marcam a realização do Baile do Menino Deus – Uma Brincadeira de Natal na praça do Marco Zero, região central de Recife. É um dos espetáculos mais emblemáticos do calendário cultural pernambucano e um marco das celebrações natalinas na cidade, reunindo milhares de pessoas. Combinando música, dança, teatro e manifestações da cultura popular nordestina. É uma verdadeira ebulição artística o maior espetáculo natalino do país baseado na cultura brasileira.
O Baile nasceu em 1983 a partir do desejo dos amigos artistas Ronaldo Correia de Brito, Assis Lima e Antonio Madureira (Zoca) de ver um auto de Natal entremeado pelas tradições universais e brasileiras. Faz parte do calendário oficial do principal palco a céu aberto do Recife, o Marco Zero. Ao lado dele, só o carnaval e a Paixão de Cristo. O Baile mantém um rodízio frequente, no palco, de artistas renomados da música brasileira, de Lia de Itamaracá a Elba Ramalho, Maurício Tizumba, Chico César, entre outros. O espetáculo é costurado entre a tradição religiosa milenar do nascimento de Jesus, filho de Maria e José, e características incorporadas de folguedos e brincadeiras populares, como o ritual de abertura da porta do reisado.

brasileiro, livre de clichês estrangeiros, ganha um novo capítulo em Pernambuco

patrimônio vivo de Pernambuco, expoente inegável da cultura brasileira e
artista com prestígio internacional. Da vida quieta em sua ilha, cantando
e dançando cirandas, Lia ganhou os palcos do Brasil e do mundo

do Baile do Menino Deus – Foto: Morgana Narjara
Intensificada em 2025 sob o viés da expansão, o espetáculo absorve novas linguagens e artistas na composição cênica caracterizada pela brasilidade e ganha o streaming com a inclusão de um especial numa plataforma. As inovações revigoram os contornos de pluralidade da encenação alçada a Patrimônio Imaterial do Recife (Lei Municipal 19.256/2024) pela Câmara Municipal, consolidando-se como um projeto que valoriza saberes tradicionais e promove o acesso democrático à cultura, envolvendo artistas locais e mantendo viva a tradição dos autos natalinos, adaptando-a à linguagem contemporânea e promovida há mais de duas décadas nos dias 23, 24 e 25, no Marco Zero da cidade, sempre às 20h, para uma plateia presencial estimada em 70 mil pessoas e outras milhares em exibição virtual. O reconhecimento solidifica a importância do Baile para a memória e identidade cultural de Pernambuco, fortalecendo o sentimento de pertencimento e a cultura popular. O espetáculo, gratuito e aberto ao público, apresenta uma releitura do nascimento de Jesus a partir de referências da cultura popular brasileira. No palco, o sagrado e o popular se encontram por meio de ritmos como frevo, maracatu, caboclinhos, coco e ciranda, interpretados por músicos, bailarinos, atores e brincantes.
O Baile é um espetáculo com viés sincrético criado como contraponto à influência estrangeira de elementos de países de clima frio nas celebrações natalinas. Neste ano, o evento apresente uma montagem ainda mais surpreendente. A dramaturgia trará cenas inusitadas que evidenciam a potência do teatro, da música e da dança, de forma primorosa, inspirada nos símbolos e no imaginário da cultura brasileira, marcado por excelência artística e técnica. A cada ano, a mídia nacional reforça o reconhecimento do Baile como o grande espetáculo de Natal do país.
A encenação dispensa os artifícios incompatíveis com a cultura de uma região tropical e garimpa nas manifestações populares, na oralidade e na tradição os recursos para construir uma identidade própria e nacional de tributo à renovação da vida. Saem de cena trenós, neve, renas e entram maracatus, frevo, caboclinho, reisado, expressões de ontem e hoje costuradas para representar, no palco, a brasilidade legada pelos povos formadores – indígena, negro e ibérico – e questões pertinentes à sociedade brasileira (inclusão, solidariedade, desigualdade, oportunidade).

Deus no Marco Zero, em Recife – Foto: Gianny Melo

reunidos no Marco Zero, se reinventa sem perder suas raízes

combina elementos da cultura brasileira com uma abordagem inovadora
e autêntica sobre o nascimento de Jesus – Foto: Hans Manteuffel
A trama apresenta a busca de dois Mateus pela casa onde nasce o menino para fazer uma festa sob consentimento de José e Maria. A peregrinação é atravessada por encontros com criaturas fantásticas do imaginário popular, grupos de expressões artísticas e dilemas existenciais, sociais e coletivos – como falta de oportunidade, portas fechadas, metáforas sobre a vida em sociedade. Este ano, em dezembro, o Baile apresentou pela primeira vez uma versão em Goiana, na Mata Norte do estado, e realizou um cortejo inédito pelas ruas do Bairro do Recife, com elenco do espetáculo acompanhado por grupos do ciclo natalino e carnavalesco. Foram mais de 300 artistas seguidos por centenas de pessoas, exibição de força cultural em contraste com desfile de viés consumista de caminhões de refrigerantes alçados a símbolos do natal.
As apresentações tradicionais deste ano na semana de Natal serão arejadas com mudanças no elenco a partir da entrada do sanfoneiro Flávio Leandro, nome prestigiado no panteão forrozeiro do Nordeste e do Brasil – ele participou do filme sobre o Baile gravado em teatro no ano de 2021. O músico está escalado para a cena do pastoreio do boi, passagem melódica de reverência a uma figura mística do Nordeste associada à ancestralidade e à fertilidade. Outra estrela é o
Maestro Spok, ícone do frevo e do jazz brasileiros.


participa da festa juntando o sagrado ao profano – Foto: Paulo Filizola

Brasil, com um pé no popular e outro na tradição
O grupo de solistas do espetáculo também conta, neste ano, com a cantora pernambucana Joyce Alane, nome em ascensão da música brasileira finalista do Grammy Latino com o álbum “Casa Coração” e indicada ao Prêmio Multishow de artista revelação. A pluralidade cênica do Baile se estende com a inclusão de mais uma manifestação brotadas das ruas: o popping, dança mundialmente popularizada pelo cantor Michael Jackson com movimentos livres e ‘robóticos’ se junta ao hip hop e a outros gêneros constituintes da arte pernambucana e brasileira – caboclinho, maracatus, frevo. A apresentação no espetáculo será conduzida pelo dançarino Dimas Popping, expoente do gênero, junto ao corpo de baile fixo da montagem.
Baile é uma constante renovação de cenas, arranjos, personagens e adaptações características de uma obra viva sempre em reformulação, refeltindo as nuances da cultura brasileira, captando e provocanado reflexões sobre a contemporaneidade. Um grande guarda-chuva que incorpora tudo que o Recife, o Brasil e o mundo produzem, com um pé no popular e outro na tradição.