Foram 394 mortes registradas entre 2021 e 2015 e segurança em silos entra no centro da agenda do agro após série de acidentes fatais e alerta regulatório
O ambiente de armazenagem de grãos no Brasil tem revelado um quadro preocupante sob a ótica da segurança do trabalho. Levantamento da Auditoria-Fiscal do Trabalho, vinculada ao Ministério do Trabalho, indica que, entre 2021 e 2025, ao menos 394 trabalhadores perderam a vida em acidentes relacionados a silos de armazenagem, o que representa uma média de 1,5 morte por semana nesse tipo de operação. Os dados evidenciam a gravidade do cenário e reforçam a necessidade de revisão das práticas operacionais e de gestão de risco no setor.
A principal causa dos óbitos é o soterramento por grãos (39,4%), seguido por quedas em altura (18,7%), eventos frequentemente associados a atividades de desobstrução manual de material compactado no interior dos silos. Essas operações, realizadas para restabelecer o fluxo dos grãos, expõem os trabalhadores a condições extremas de risco, especialmente em ambientes com dinâmica instável de massa e ausência de protocolos rigorosos de bloqueio e isolamento.
Outro dado relevante é o índice de 1,15 morte por acidente, indicando ocorrências com múltiplas vítimas. Em muitos casos, trabalhadores tentam resgatar colegas em situação de risco, resultando em fatalidades adicionais. Explosões relacionadas à poeira combustível também figuram entre os eventos mais críticos, com potencial de gerar mortes coletivas e danos estruturais severos.

Distribuição regional, perfil ocupacional e subnotificação
Os acidentes em silos apresentam forte correlação com a geografia da produção agrícola brasileira. As regiões Sul e Centro-Oeste concentram 67,77% dos óbitos registrados, acompanhando a distribuição da infraestrutura de armazenagem no país. O Sul responde por 38,58% das mortes, enquanto o Centro-Oeste representa 29,19%, com destaque para estados como Mato Grosso, Paraná e Rio Grande do Sul, que juntos somam 46,4% das fatalidades.
A análise do perfil das vítimas revela predominância de trabalhadores entre 21 e 50 anos (74% dos casos), com significativa participação de mão de obra terceirizada e temporária, frequentemente associada a períodos de safra. Observa-se ainda a presença relevante de trabalhadores migrantes, o que amplia os desafios relacionados à capacitação, comunicação de riscos e padronização de procedimentos operacionais.
A metodologia do levantamento baseou-se na Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), instrumento oficial de registro junto à Previdência Social. No entanto, especialistas apontam a possibilidade de subnotificação estrutural, decorrente tanto da classificação genérica das atividades sob o termo “armazenamento” quanto da omissão de registros em casos de morte posterior ao acidente. Esse fator sugere que o número real de ocorrências pode ser ainda mais elevado.
As características regionais também influenciam o tipo de acidente predominante. No Centro-Oeste, especialmente em áreas de produção intensiva, predominam os casos de engolfamento durante operações em silos agrícolas. Já no Sul, observa-se maior incidência de quedas e colapsos estruturais, muitas vezes associados a instalações mais antigas. Intoxicações por gases também aparecem com relevância em estados como Paraná e Mato Grosso do Sul.

Foto: Corpo de Bombeiros

Foto: Corpo de Bombeiros
Engenharia de segurança, conformidade e mudança de paradigma
As atividades em silos são classificadas como trabalho em espaço confinado, condição que, por definição legal, exige protocolos rigorosos de segurança devido à limitação de acesso, ventilação restrita e presença de atmosferas potencialmente perigosas. Apesar da existência de normas regulamentadoras consolidadas, avaliações técnicas indicam que mais de 90% dos acidentes poderiam ser evitados com o cumprimento adequado da legislação vigente.
Entre os fatores críticos identificados estão o baixo investimento em medidas de proteção coletiva, falhas na gestão de riscos e a execução de atividades sem equipes completas, que deveriam incluir trabalhador, vigia e supervisor devidamente capacitados. A ausência de sistemas de monitoramento, controle de poeira e dispositivos de segurança em equipamentos de transporte e elevação de grãos também contribui para o aumento da exposição ao risco.
Especialistas defendem uma mudança de abordagem, com maior ênfase em controles de engenharia e soluções estruturais, em detrimento da dependência exclusiva de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Tecnologias como sistemas de ventilação e exaustão eficientes, sensores de monitoramento, estruturas de acesso seguras e dispositivos de alívio de explosões são apontadas como essenciais para reduzir a criticidade dos ambientes.

Além disso, há crescente reconhecimento de que o projeto dos silos deve considerar não apenas a eficiência na conservação dos grãos, mas também a segurança operacional e a ergonomia do trabalho humano, exigindo realinhamento entre fabricantes, operadores e investidores. O treinamentos das equipes é fundamental, observando-se um conteúdo programáticos com temas que vão desde a legislação específica para trabalho em altura e em espaços confinados, reconhecimento, avaliação e controle dos riscos, até a funcionalidade e os aspectos ligados aos produtos armazenados. Ainda existe uma grande deficiência na formação de profissionais capacitados a operar silos no Brasil.
Iniciativas setoriais já começam a avançar nessa direção. A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), por exemplo, incorporou a temática da segurança em silos ao Programa Soja Legal, reforçando a importância da conformidade trabalhista e da promoção de ambientes operacionais seguros. Ainda assim, o desafio permanece amplo e demanda atuação coordenada entre empresas, trabalhadores e poder público.