Fauna – Uma história de esperança a do raro canguru-arborícola

Um dos mamíferos mais raros e enigmáticos do planeta voltou ao radar da ciência após quase um século sem registros confirmados. O canguru-arborícola-de-Wondiwoi (Dendrolagus mayri), considerado possivelmente extinto, foi fotografado pela primeira vez em 2018 nas montanhas da Península de Wondiwoi, na Papua Ocidental, Indonésia.

A redescoberta representa um marco para a biologia da conservação e reacende o debate sobre proteção de habitats tropicais isolados e espécies criticamente ameaçadas.

Uma espécie conhecida por um único exemplar

Até 2018, todo o conhecimento científico sobre o canguru-arborícola-de-Wondiwoi baseava-se em um único espécime coletado em 1928 pelo biólogo Ernst Mayr. O macho, com 9,25 kg, foi encontrado nas montanhas da Península de Wondiwoi e posteriormente descrito como nova espécie em 1933.

Durante décadas, nenhuma evidência adicional foi registrada. A espécie passou a ser tratada como possivelmente extinta, figurando na lista das 25 espécies perdidas mais procuradas do mundo, segundo a Global Wildlife Conservation (GWC).

A ausência de registros por quase 90 anos consolidou sua reputação como um dos mamíferos menos conhecidos do planeta.

O mapa mostra a localização das montanhas da Península de Wondiwoi, na Papua Ocidental, Indonésia
O mapa mostra a localização das montanhas da
Península de Wondiwoi, na Papua Ocidental, Indonésia

A expedição que confirmou a redescoberta

A confirmação da sobrevivência da espécie ocorreu em julho de 2018, liderada pelo naturalista britânico Michael Smith. Embora atue profissionalmente na área de comunicação médica, Smith dedica seu tempo livre à exploração botânica em regiões remotas da Ásia.

Após ouvir relatos locais sobre um animal incomum nas montanhas da Papua Ocidental, ele organizou uma expedição à floresta montana da Península de Wondiwoi.

A equipe precisou superar barreiras naturais significativas. Caçadores locais raramente ultrapassam 1.300 metros de altitude devido à presença de densos bambuzais. Para alcançar áreas superiores — entre 1.500 e 2.100 metros — o grupo abriu trilhas manualmente, acompanhado por carregadores, um guia local e um estudante da Universidade de Papua.

Durante a subida, foram identificados indícios típicos de cangurus-arborícolas:

  • Arranhões característicos em troncos
  • Excrementos recentes
  • Odor semelhante ao de raposa

No final da expedição, a aproximadamente 30 metros de altura na copa de uma árvore, um indivíduo foi avistado e fotografado. As imagens foram posteriormente analisadas por especialistas em macrópodes, incluindo pesquisadores da Universidade James Cook (Austrália), que confirmaram tratar-se de Dendrolagus mayri.

Características biológicas e adaptações

O canguru-arborícola-de-Wondiwoi pertence à família Macropodidae, a mesma dos cangurus e wallabies. Diferentemente das espécies terrestres, os cangurus-arborícolas apresentam adaptações específicas para a vida nas copas das árvores.

Entre suas principais características estão:

  • Cauda longa e robusta, utilizada como contrapeso
  • Membros anteriores fortes e musculosos
  • Garras afiadas para escalada
  • Patas traseiras mais curtas e largas
  • Pelagem em tons de terracota e ocre, favorecendo camuflagem

As fêmeas possuem marsúpio frontal com quatro mamas. A dieta é composta predominantemente por folhas das copas, auxiliada por dentição adaptada ao corte de vegetação.

Uma ilustração que está no Museu de História Natural de Londres e uma das fotos de Michael Smith
Uma ilustração que está no Museu de História Natural
de Londres
e uma das fotos de Michael Smith

Estima-se que a espécie habite exclusivamente florestas tropicais montanas acima de 1.600 metros de altitude, um ambiente isolado e coberto por musgos — fator que pode ter contribuído para sua sobrevivência longe da pressão humana.

Distribuição extremamente limitada

Especialistas sugerem que a área de ocorrência da espécie pode variar entre 100 e 300 km², tornando-a uma das distribuições mais restritas entre mamíferos de grande porte.

Apesar de sinais indicarem presença relativamente frequente dentro dessa área específica, a limitação geográfica aumenta significativamente sua vulnerabilidade a ameaças externas.

Status de conservação e riscos atuais

Mesmo após a redescoberta, o canguru-arborícola-de-Wondiwoi permanece classificado pela IUCN como “Criticamente Ameaçado (Possivelmente Extinto)”, com estimativas indicando menos de 50 indivíduos maduros.

Entre as principais ameaças estão:

  • Caça excessiva
  • Extração madeireira
  • Expansão de plantações de óleo de palma
  • Projetos de mineração, incluindo proposta de extração de ouro na região

O raríssimo canguru-arborícola Wondiwoi foi observado por cientistas pela última vez em 1928, e pesquisadores tinham apenas desenhos como este. Ele agora foi fotografado em uma remota cadeia de montanhas na Nova Guiné - Ilustração - Peter Schouten
O raríssimo canguru-arborícola Wondiwoi foi observado
por cientistas pela última vez em 1928, e pesquisadores
tinham apenas desenhos como este. Ele agora foi
fotografado em uma remota cadeia de montanhas
na Nova Guiné – Ilustração – Peter Schouten

A sobrevivência da espécie está diretamente relacionada à preservação das florestas montanhosas e ao reconhecimento dos direitos territoriais dos povos indígenas da Papua, cujas práticas tradicionais têm contribuído historicamente para a conservação do ecossistema.

Implicações para a conservação da biodiversidade

A redescoberta do Dendrolagus mayri vai além do registro fotográfico. Ela reforça três pontos centrais para a conservação:

1- Ecossistemas isolados ainda podem abrigar espécies consideradas perdidas.
2- A proteção de áreas montanas tropicais é estratégica para a biodiversidade global.
3- Conhecimento indígena e ciência moderna são complementares na gestão ambiental.

O próximo passo envolve coleta de material genético para comparação com o espécime histórico de 1928, permitindo confirmação molecular e maior compreensão da variabilidade genética da população atual.

Um alerta para os ecossistemas tropicais

A trajetória do canguru-arborícola-de-Wondiwoi — da obscuridade científica à redescoberta — simboliza tanto a resiliência da natureza quanto sua fragilidade diante da pressão econômica.

A existência da espécie oferece uma oportunidade única para implementar medidas de conservação baseadas em evidências antes que o cenário se torne irreversível.

A pergunta que permanece é: haverá tempo suficiente para transformar redescoberta em recuperação populacional?

Leia também: