Evento debate relação humana com a fauna aquática

No dia 21 de março de 2026, a cidade de Santos (SP) sediará a terceira edição do Painel Oceano Vivo, iniciativa que busca ampliar o debate público sobre a relação entre sociedade e ecossistemas aquáticos. O encontro será realizado no auditório da Universidade Santa Cecília (Unisanta), às 9h, localizado na Rua Oswaldo Cruz, 277, Bloco E, 4º andar, no bairro Boqueirão. O evento terá entrada gratuita e certificação para os participantes inscritos, reunindo especialistas, pesquisadores, representantes de organizações da sociedade civil e integrantes do terceiro setor para discutir os desafios contemporâneos relacionados à preservação da vida marinha e à sustentabilidade dos ambientes aquáticos.

Promovido pelo Fórum Animal, em parceria com a Sea Shepherd Brasil, a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) e o VIVA Instituto Verde Azul, o painel terá como eixo central o tema “Consciência que transforma nossa relação com a vida aquática”. A proposta é fomentar uma reflexão qualificada sobre os impactos das atividades humanas sobre oceanos, mares e rios, ao mesmo tempo em que se discute a evolução do conhecimento científico acerca da complexidade biológica e comportamental dos organismos que habitam esses ecossistemas.

Estima-se que entre 1 e 3 trilhões de peixes sejam mortos anualmente para alimentação humana - Foto: Jean Wimmerlin
Estima-se que entre 1 e 3 trilhões de peixes
sejam mortos anualmente para alimentação
humana – Foto: Jean Wimmerlin

Ecossistemas aquáticos e invisibilidade no debate público

Apesar de oceanos, mares e rios cobrirem cerca de 75% da superfície do planeta e abrigarem uma das maiores biodiversidades da Terra, os ambientes aquáticos ainda recebem atenção limitada nas decisões cotidianas da sociedade e nas agendas públicas de sustentabilidade. Para os organizadores do evento, essa lacuna reflete uma histórica invisibilidade dos animais aquáticos no debate ético, científico e ambiental, mesmo diante de avanços recentes nas pesquisas sobre comportamento e cognição desses organismos.

Estudos científicos conduzidos nas últimas décadas indicam que peixes e diversos invertebrados marinhos apresentam evidências de senciência, ou seja, capacidade de sentir dor, prazer e outras experiências subjetivas. Pesquisas também apontam formas complexas de aprendizagem, memória e interação social entre diversas espécies aquáticas, ampliando o entendimento sobre a sofisticação biológica desses animais e reforçando discussões sobre sua consideração ética.

O contraste entre esse conhecimento científico e as práticas atuais de exploração marinha permanece significativo. Estima-se que entre 1 e 3 trilhões de peixes sejam mortos anualmente para alimentação humana, muitas vezes em processos de abate que desconsideram o sofrimento animal. Além das implicações éticas relacionadas ao tratamento desses organismos, a exploração intensiva dos recursos marinhos também gera impactos ambientais relevantes.

Chamada para o Painel Oceano Vivo

A pesca industrial, por exemplo, pode provocar danos significativos aos habitats oceânicos, especialmente quando emprega técnicas de arrasto, capazes de revolver extensas áreas do leito marinho e alterar estruturas ecológicas essenciais para inúmeras espécies. Outro fenômeno recorrente é a captura acidental de espécies não-alvo, conhecida como fauna acessória, que resulta na morte de animais capturados incidentalmente durante operações pesqueiras direcionadas a outras espécies comerciais.

A expansão da aquicultura intensiva, voltada à produção de peixes em cativeiro, também vem sendo objeto de crescente debate técnico e científico. De acordo com os organizadores do evento, sistemas produtivos de alta densidade frequentemente estão associados a condições de confinamento extremo, estresse fisiológico elevado e altas taxas de mortalidade, levantando questionamentos sobre bem-estar animal e sustentabilidade produtiva.

Baleias, ciclo do carbono e equilíbrio dos oceanos

Entre os temas abordados no Painel Oceano Vivo está também o papel ecológico das grandes espécies marinhas no equilíbrio dos ecossistemas oceânicos. As baleias, por exemplo, desempenham uma função estratégica na dinâmica de nutrientes dos oceanos, sendo frequentemente descritas por pesquisadores como “jardineiras do mar”.

As baleias desempenham uma função estratégica na dinâmica de nutrientes dos oceanos
As baleias desempenham uma função estratégica
na dinâmica de nutrientes dos oceanos

Durante seus deslocamentos migratórios, esses animais contribuem para a dispersão de nutrientes na coluna d’água, estimulando a produtividade do fitoplâncton, base da cadeia alimentar marinha e responsável por processos fundamentais de fotossíntese oceânica. Esse mecanismo tem implicações diretas no equilíbrio climático global, uma vez que o fitoplâncton captura dióxido de carbono da atmosfera e libera oxigênio, contribuindo para a regulação do clima e para a manutenção dos ciclos biogeoquímicos do planeta.

Estima-se que aproximadamente metade do oxigênio produzido no planeta tenha origem nos oceanos, evidenciando a importância estratégica desses ambientes para a estabilidade ambiental global. Entretanto, atividades econômicas intensivas também têm afetado a base alimentar de diversas espécies marinhas. A pesca industrial de krill, principal alimento de diversas espécies de baleias, tem sido apontada como um fator de pressão adicional sobre esses animais e sobre o equilíbrio ecológico de regiões oceânicas sensíveis.

O encontro em Santos deverá apresentar debates técnicos, recursos audiovisuais e momentos de interação com o público, ampliando o diálogo entre especialistas e sociedade sobre os desafios contemporâneos relacionados à conservação marinha.

A pesca industrial de krill, principal alimento de diversas espécies de baleias, tem sido apontada como um fator de pressão adicional sobre esses animais e sobre o equilíbrio ecológico de regiões oceânicas sensíveis
A pesca industrial de krill, principal alimento de diversas
espécies de baleias, tem sido apontada como um fator
de pressão adicional sobre esses animais e sobre o
equilíbrio ecológico de regiões oceânicas sensíveis

Diante do atual cenário de urgência ambiental e crescente pressão sobre os recursos naturais, os organizadores do evento defendem a ampliação do debate ético sobre a forma como a humanidade se relaciona com os animais aquáticos. Nesse contexto, questiona-se a lógica do especismo, conceito que se refere à atribuição de menor valor moral a determinadas espécies.

Para os participantes do painel, repensar os modelos de relação com a vida marinha envolve tanto mudanças nos padrões de consumo quanto o desenvolvimento de políticas públicas estruturadas, que incluam educação ambiental, inovação tecnológica e estratégias de reconversão profissional voltadas a trabalhadores cuja renda atualmente depende de atividades pesqueiras.

A transição para modelos produtivos e sociais mais sustentáveis exige, portanto, abordagens integradas que conciliem conservação ambiental, segurança econômica e evolução ética nas relações entre sociedade e natureza, reconhecendo os oceanos como um dos pilares essenciais da estabilidade ecológica do planeta.

Os interessados podem realizar suas inscrições CLICANDO AQUI.

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