Criação livre e manejo coletivo garantem equilíbrio ambiental e preservam séculos de história no semiárido baiano
O som metálico dos cincerros ecoa entre as serras de Canudos, no sertão da Bahia, marcando o compasso da vida nas comunidades tradicionais conhecidas como fundos de pasto. Nesses territórios, a criação de cabras e ovelhas soltas na Caatinga é mais que um meio de subsistência, é uma expressão de cultura, autonomia e convivência harmoniosa com o bioma mais singular do país.
Desde o século XIX, famílias sertanejas mantêm essa forma de manejo coletivo das terras, onde o gado é criado em áreas comuns, alimentando-se de pastagens nativas e retornando espontaneamente aos currais ao fim do dia. Essa prática, herdada de gerações e moldada pela história da ocupação humana no semiárido, reflete uma sabedoria que alia tradição, adaptação e sustentabilidade.
Raízes históricas e modo de vida
As comunidades de Angico e Barriguda, localizadas no entorno do Parque Estadual de Canudos, simbolizam a resistência e a continuidade de um modo de vida que remonta aos tempos da Guerra de Canudos, liderada por Antônio Conselheiro. Os moradores mais antigos guardam lembranças e histórias passadas de geração em geração, preservando o vínculo com a terra e com a memória coletiva do sertão.
Essas comunidades mantêm laços profundos com o território, não apenas pelo aspecto econômico, mas pela relação simbólica e espiritual com a Caatinga. Criar os animais soltos, sem cercas rígidas, é parte da identidade local, um sistema que integra o humano, o animal e a natureza num mesmo ciclo de respeito e equilíbrio.

O fundo de pasto e sua função social
O fundo de pasto é uma área comunitária usada para a criação coletiva de caprinos e ovinos. Todos os moradores de uma comunidade têm direito a utilizar o espaço, respeitando regras estabelecidas localmente. Esse modelo, construído sobre valores de solidariedade e uso sustentável dos recursos naturais, garante autonomia econômica e segurança alimentar às famílias do sertão.
De acordo com estudos de organizações socioambientais, essas comunidades desempenham papel essencial na conservação da Caatinga, um bioma exclusivo do Brasil e um dos mais ameaçados pelo desmatamento e pelas mudanças climáticas.
O que são as comunidades de fundo de pasto
As comunidades de fundo de pasto são grupos tradicionais do semiárido nordestino, especialmente da Bahia, que praticam a criação coletiva de animais em áreas de uso comum, sem divisão de cercas individuais. Esse modelo remonta ao século XVIII e representa uma forma singular de ocupação do território, onde prevalecem a solidariedade comunitária e o manejo sustentável do bioma Caatinga.
– Origem: Surgiram no período colonial, quando famílias sertanejas passaram a compartilhar áreas de pastagem próximas aos povoados.
– Atividade principal: Criação extensiva de caprinos, ovinos e bovinos de pequeno porte, alimentados pela vegetação nativa.
– Importância ambiental: O sistema evita o desmatamento, reduz a degradação do solo e contribui para a conservação da biodiversidade da Caatinga.
– Reconhecimento legal: Desde 2007, são reconhecidas como comunidades tradicionais pelo Governo Federal, pelo Decreto 6.040, de 07 de fevereiro de 2007 e pela Lei Estadual nº 12.910, de 11 de outubro de 2013, com direito à permanência e ao uso coletivo das terras.
– Distribuição: Estima-se que existam mais de 500 comunidades de fundo de pasto na Bahia, abrangendo mais de 300 mil hectares de áreas de uso comum.
– Desafios atuais: Enfrentam a pressão de empreendimentos de energia e mineração, a grilagem de terras e a falta de titulação definitiva, o que compromete sua segurança territorial.
A criação extensiva, baseada na vegetação nativa, evita o desmatamento para formação de pastos artificiais e contribui para a manutenção da biodiversidade. Os animais alimentam-se de arbustos e ervas adaptadas ao clima semiárido, sem a necessidade de insumos externos, o que torna o sistema naturalmente sustentável.
Ameaças e desafios territoriais
Apesar de seu valor histórico, ambiental e cultural, as comunidades de fundo de pasto enfrentam pressões crescentes. A ausência de título definitivo da terra e o avanço de empreendimentos econômicos sobre o território têm colocado em risco a continuidade desse modo de vida.
Em muitas regiões, o agronegócio extensivo, a mineração e os parques de energia eólica e solar disputam espaço com as áreas tradicionais. O processo de grilagem (apropriação ilegal de terras públicas ou comunitárias) é uma ameaça constante, fragilizando as comunidades e limitando o acesso dos criadores aos espaços de pastoreio.

áreas e comunidades tradicionais – Foto: Vinícius Sobreira/Brasil de Fato
Mesmo com o reconhecimento federal e estadual como comunidades tradicionais desde 2007, a posse das áreas de Angico e Barriguda é regida por contratos temporários de concessão, o que gera insegurança jurídica e vulnerabilidade frente a pressões externas.
Preservação ambiental em meio à adversidade
O bioma da Caatinga, único no mundo, cobre cerca de 11% do território nacional, mas sofre com altas taxas de degradação. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), mais de 3.200 km² de vegetação nativa foram desmatados em 2023, sendo a Bahia responsável por 37% desse total.
Nas comunidades de fundo de pasto, porém, o manejo sustentável ajuda a conter esse avanço. A criação livre evita o sobrepastoreio, e o conhecimento tradicional orienta o uso racional das áreas, respeitando o tempo de regeneração da vegetação.
Os moradores costumam identificar, com base na observação empírica, quais áreas devem ser preservadas durante o período seco e quais podem ser utilizadas em épocas de maior oferta de alimento natural. Essa lógica de uso coletivo e rotativo garante que a Caatinga se regenere naturalmente, mantendo sua capacidade produtiva.

Foto: Fernanda Birolo/Embrapa Semiárido
A nova geração e o equilíbrio produtivo
A escassez de pastagem nativa e o crescimento dos rebanhos têm levado muitos criadores a adotar estratégias modernas de manejo e melhoramento genético. A introdução de animais mais produtivos permite manter a qualidade e o rendimento sem ampliar o número de cabeças, reduzindo a pressão sobre o ambiente.
Alguns produtores também vêm apostando na produção de silagem e forragens alternativas, aproveitando restos de poda de espécies nativas, como jurema e catingueira, para garantir alimento durante os períodos de estiagem. Essas iniciativas mostram que tradição e inovação podem caminhar juntas, fortalecendo o equilíbrio entre a produção e a preservação do bioma.
O fundo de pasto é o mesmo há décadas, mas
os desafios aumentaram. Produzir com menos
animais e mais eficiência é uma forma de proteger
tanto a natureza quanto o sustento das famílias
Conflitos e convivência com novos empreendimentos
Nos últimos anos, o avanço de projetos de energia renovável, especialmente parques eólicos e solares, tem se intensificado no semiárido baiano. Embora representem alternativas sustentáveis no campo energético, esses empreendimentos nem sempre dialogam adequadamente com as comunidades tradicionais.
O cercamento de áreas e a restrição ao pastoreio provocam impactos indiretos, deslocando rebanhos e sobrecarregando outras zonas de fundo de pasto. O resultado é uma pressão adicional sobre a Caatinga e sobre os modos de vida tradicionais, que passam a conviver com novos conflitos fundiários.
Especialistas em políticas agrárias e ambientais apontam a necessidade de maior diálogo e participação comunitária na implantação desses projetos. A conciliação entre a geração de energia limpa e a permanência dos povos tradicionais é vista como uma prioridade para o desenvolvimento equilibrado do semiárido.

Patrimônio cultural e identidade sertaneja
Mais do que um sistema produtivo, o fundo de pasto é uma forma de resistência cultural. As práticas de criação livre, o uso coletivo das terras e a convivência solidária expressam valores que atravessam gerações, fortalecendo o sentimento de pertencimento e a identidade sertaneja.
As comunidades mantêm festas, rezas, mutirões e celebrações ligadas ao ciclo da criação e da colheita, reafirmando laços comunitários e a fé na terra seca, mas fértil de significados. Esse patrimônio imaterial tem sido reconhecido por pesquisadores, organizações sociais e políticas públicas como parte essencial da diversidade cultural e ambiental brasileira.
Perspectivas e caminhos para o futuro
A continuidade dos fundos de pasto depende de políticas públicas que garantam segurança territorial, apoio técnico e valorização econômica da produção local. Iniciativas de regularização fundiária, incentivo à agroecologia e certificação de produtos originários dessas comunidades podem assegurar novas fontes de renda e consolidar o modelo como exemplo de sustentabilidade no semiárido.
Ao mesmo tempo, o fortalecimento das associações e cooperativas comunitárias amplia o acesso a programas de crédito e assistência técnica, promovendo autonomia e permanência no campo.
A Caatinga, com toda sua complexidade ecológica, encontra nessas comunidades um de seus principais guardiões. Os criadores de fundo de pasto são prova de que o conhecimento tradicional, quando aliado à responsabilidade ambiental, pode garantir produção, conservação e cultura em harmonia.
Resistência e renovação no sertão
As comunidades de fundo de pasto representam um dos exemplos mais autênticos de convivência sustentável com o semiárido. Entre cercas invisíveis e laços de solidariedade, elas preservam não apenas o bioma da Caatinga, mas também um modo de viver que resiste às transformações do tempo.
A criação livre, o uso coletivo e o respeito à natureza traduzem uma sabedoria ancestral que segue atual, um modelo que inspira a pensar o futuro do campo com base na cooperação, na tradição e na sustentabilidade. No sertão de Canudos, o som dos cincerros (instrumento colocado no pescoço do animal para localizá-lo na mata) continua ecoando, lembrando que ali a liberdade dos animais é também a liberdade de um povo e de sua história.
A caatinga, bioma exclusivo do Brasil
A Caatinga é o único bioma inteiramente brasileiro, ocupando cerca de 844 mil km², o equivalente a 11% do território nacional. Abrange principalmente os estados do Nordeste e parte de Minas Gerais.
– Clima: Semiárido, com chuvas irregulares e longos períodos de seca.
– Vegetação: Composta por plantas adaptadas à escassez de água, como mandacaru, xique-xique, jurema e umbuzeiro.
– Biodiversidade: Apesar da aridez, abriga mais de 1.000 espécies de animais e 5.000 espécies de plantas, muitas endêmicas.
– Ameaças: Desmatamento, sobrepastoreio e desertificação. Somente em 2023, o INPE registrou aumento de 23% no desmatamento, totalizando mais de 3.200 km² de áreas perdidas.
– Importância: Essencial para o equilíbrio climático regional, a recarga dos aquíferos e a subsistência de milhões de pessoas que vivem em seu território.