Há 33 anos a Estação Científica Ferreira Penna estuda os impactos da crise climática na amazônia, mas pode morrer pelo descaso das autoridades
Há mais de três décadas, a Estação Científica Ferreira Penna, situada na Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará, consolida-se como um dos mais relevantes polos de pesquisa sobre os impactos da crise climática na Amazônia, reunindo séries históricas únicas e evidências científicas fundamentais para a formulação de políticas públicas ambientais. No entanto, o que deveria representar um ativo estratégico nacional encontra-se sob ameaça concreta de paralisação, em um cenário de subfinanciamento crônico, descontinuidade orçamentária e negligência institucional, que obriga pesquisadores a custearem, com recursos próprios, a manutenção de atividades essenciais de campo.
Experimentos pioneiros, como o Estudo da seca da Floresta – Esecaflor, que simulou a redução de chuvas em um hectare de floresta e registrou a perda de até 40% da biomassa em menos de uma década, além da substituição de espécies arbóreas por vegetações mais resistentes à seca, demonstram, de forma inequívoca, os riscos sistêmicos associados à alteração do regime hídrico amazônico, antecipando cenários que podem comprometer a estabilidade ecológica do bioma em larga escala.

toda a comunidade da região – Foto: Lela Beltrão/Sumaúma

Ainda assim, tais evidências científicas, acumuladas ao longo de mais de 25 anos de pesquisa contínua, uma das mais longas do mundo nesse campo, permanecem subaproveitadas diante da fragilidade estrutural da instituição responsável, o Museu Paraense Emílio Goeldi, cujo orçamento de R$ 17 milhões em 2026 é insuficiente até mesmo para garantir o funcionamento básico até o fim do ano, evidenciando uma discrepância crítica entre a relevância científica e o apoio governamental.
O impacto desse estrangulamento financeiro transcende a logística, já onerosa, com deslocamentos que ultrapassam 400 km fluviais e custos elevados de operação, e ameaça diretamente a continuidade de estudos estratégicos sobre clima, biodiversidade e carbono, conduzidos em uma região-chave para o equilíbrio ambiental global.

Esecaflor que ajudou a medir o impacto das mudanças
climáticas sobre a floresta – Foto: Rafael Oliveira

galhos e a manutenção depende de logística cara e
demorada – Foto: Lela Beltrão/Sumaúma

de 53 m que ajuda a compreender como o clima, a
química da atmosfera, as dinâmicas das águas e do
carbono se entrelaçam com a mudança no uso da terra
e o desmatamento na Amazônia – Foto: Jailson Ramos/LBA
Inserida em um contexto mais amplo de desmonte das instituições científicas federais, com déficit estimado em R$ 134 milhões apenas para manutenção básica de centros de pesquisa amazônicos, a situação da estação evidencia uma contradição estrutural: enquanto o Brasil ocupa posição central no debate climático internacional, falha em garantir condições mínimas para a produção do conhecimento que sustenta esse protagonismo.
Entre infraestruturas deterioradas, operações custeadas informalmente e projetos de longa duração ameaçados, a persistência da pesquisa em Caxiuanã depende hoje menos de políticas de Estado e mais do comprometimento individual de seus cientistas, configurando um cenário alarmante de descaso com o patrimônio científico nacional e risco iminente de perda irreversível de conhecimento estratégico.
Fonte: Sumaúma. Leia a matéria completa CLICANDO AQUI.