Com crescimento contínuo, diversificação regional e foco em qualidade, a cacauicultura baiana se consolida como referência global em produção sustentável e chocolates de origem
A cacauicultura na Bahia vem consolidando sua posição como uma das principais atividades do agronegócio regional, combinando tradição histórica com avanços tecnológicos e institucionais. Introduzido no sul do estado ainda no século XVII, o cacau evoluiu de uma cultura extrativista para um sistema produtivo estruturado, com forte impacto econômico. Atualmente, a Bahia figura entre os maiores produtores nacionais, com volume superior a 137 mil toneladas e estimativa de R$ 6,5 bilhões em valor bruto da produção em 2025, evidenciando sua relevância estratégica para a geração de renda e dinamização das economias locais.
Esse desempenho é sustentado por um conjunto de fatores que incluem políticas públicas direcionadas, modernização tecnológica e fortalecimento da assistência técnica, além de condições edafoclimáticas favoráveis. A adoção de práticas agronômicas mais eficientes, associada ao manejo fitossanitário rigoroso, tem contribuído para ganhos consistentes de produtividade e qualidade. Projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE indicam crescimento adicional de 5,3% na produção em 2026, reforçando o papel do cacau como vetor de expansão agrícola no estado.
A modernização do setor também se reflete na diversificação de mercados e produtos, com ampliação do uso das amêndoas e maior inserção em nichos de valor agregado. Esse movimento posiciona o cacau baiano não apenas como commodity, mas como insumo estratégico para segmentos premium, ampliando sua competitividade no cenário nacional e internacional.

solar de amêndoas – Foto: Ana Paula Boni/Estadão

Inovação tecnológica e diversificação territorial
O avanço recente da cacauicultura baiana está diretamente associado à incorporação de tecnologias produtivas e à expansão territorial do cultivo. Enquanto o sul do estado permanece como polo histórico da produção, o oeste baiano desponta como nova fronteira agrícola, impulsionado pelo uso de irrigação e pela integração com sistemas produtivos já consolidados, como soja e algodão. Essa dinâmica amplia a resiliência do setor e promove diversificação econômica regional, reduzindo riscos e criando novas oportunidades de investimento.
A introdução de sistemas irrigados tem permitido ganhos expressivos de produtividade, sobretudo em regiões com regime hídrico distinto do tradicional cultivo sombreado. Paralelamente, práticas de manejo como a poda de luz, o controle fitossanitário e a adoção de tecnologias pós-colheita, como fermentação controlada e secagem em estufas solares, têm elevado o padrão de qualidade das amêndoas, atendendo às exigências de mercados mais sofisticados.
No campo institucional, iniciativas do Governo da Bahia têm fortalecido o setor, com destaque para programas de defesa sanitária voltados à prevenção de pragas como a monilíase, ampliação do acesso ao crédito rural e estímulo à inovação. Medidas regulatórias recentes, como a aprovação do Projeto de Lei nº 1.769/2019 pela Câmara dos Deputados, representam um avanço relevante ao estabelecer critérios mínimos para a composição de chocolate no Brasil, contribuindo para maior transparência, valorização da matéria-prima nacional e estímulo à demanda por derivados de cacau.

fica no meio da floresta, toda sombreada por outras
plantas que formam essa biodiversidade
Sustentabilidade, valor agregado e posicionamento global
Um dos principais diferenciais competitivos da cacauicultura baiana reside na adoção do sistema cabruca, modelo tradicional que integra a produção agrícola à conservação ambiental. Nesse sistema, o cacau é cultivado sob a sombra de árvores nativas da Mata Atlântica, promovendo a manutenção da biodiversidade, proteção do solo e conservação de serviços ecossistêmicos. Além de seus benefícios ambientais, a cabruca está associada à produção de amêndoas de alta qualidade, especialmente valorizadas na fabricação de chocolates finos.
A busca pela certificação e pela Indicação Geográfica (IG) do cacau cabruca representa um passo estratégico para ampliar o reconhecimento do produto no mercado internacional, agregando valor e fortalecendo a identidade regional. Paralelamente, mecanismos como o pagamento por serviços ambientais (PSA) vêm sendo incorporados à cadeia produtiva, remunerando produtores pela conservação de recursos naturais e contribuindo para a sustentabilidade econômica e ambiental do sistema.
Outro vetor de transformação é a verticalização da cadeia produtiva. A Bahia deixou de atuar predominantemente como fornecedora de matéria-prima e passou a se destacar na produção de chocolates de origem, com mais de 120 marcas entre indústrias, cooperativas e empreendimentos familiares. Esse movimento evidencia a evolução do setor rumo à agregação de valor, diferenciação de produtos e inserção estratégica em mercados premium.
Combinando tradição histórica, inovação tecnológica e compromisso ambiental, o cacau baiano consolida-se como referência global em produção sustentável. O avanço da cadeia produtiva demonstra que é possível alinhar competitividade, geração de renda e conservação ambiental, posicionando o estado como protagonista em um modelo de agronegócio mais eficiente, resiliente e orientado ao valor.