Besouro pode causar intoxicação fatal em bovinos

O reaparecimento do besouro Cissites maculata, popularmente conhecido como “arrebenta-boi”, tem despertado preocupação entre produtores rurais em diferentes regiões do país. A espécie, embora pouco frequente, representa risco toxicológico relevante para bovinos mantidos em pastejo direto, especialmente em sistemas extensivos e de baixa intervenção diária.

Pequeno, medindo entre 3 e 4 cm, o inseto apresenta coloração alaranjada intensa com manchas escuras. Esse padrão não é meramente estético: trata-se de aposematismo, mecanismo biológico de advertência típico de organismos venenosos ou irritantes.

A toxina responsável pelas intoxicações

O principal fator de risco é a presença da cantaridina, substância altamente irritante liberada quando o besouro é esmagado ou ingerido junto ao capim.

Um animal de 600 quilos pode ser derrubado por poucos miligramas de toxina do besouro - Foto: Carlos Alberto Padrón Pereira
Um animal de 600 quilos pode ser derrubado por
poucos miligramas de toxina do besouro
Foto: Carlos Alberto Padrón Pereira

Efeitos clínicos em bovinos

A ingestão acidental pode provocar:

  • ulcerações graves no trato digestivo
  • hemorragias internas
  • lesões renais agudas
  • apatia e queda de desempenho produtivo
  • morte em casos severos

Mesmo um único inseto triturado durante o pastejo pode desencadear quadro clínico significativo, dependendo da concentração da toxina e da sensibilidade individual do animal.

O maior risco sanitário da estação pode não estar no clima nem na nutrição, mas no comportamento de um pequeno besouro
O maior risco sanitário da estação pode não
estar no clima nem na nutrição, mas no
comportamento de um pequeno besouro

Comportamento biológico explica a ocorrência

O ciclo de vida do Cissites maculata favorece encontros ocasionais com o rebanho.

Fase larval

Na fase inicial, o inseto apresenta comportamento cleptoparasita:

  • deposição de ovos próxima a ninhos de abelhas solitárias
  • larvas utilizam abelhas como transporte até o ninho
  • consumo do alimento destinado às crias das abelhas

Fase adulta

Na fase adulta passa a viver na vegetação, alimentando-se de flores, pólen e tecidos vegetais. Nesse estágio ocorre o risco pecuário: o inseto permanece sobre plantas forrageiras e pode ser ingerido acidentalmente durante o pastejo.

Distribuição e presença nas propriedades

A espécie apresenta ampla distribuição geográfica, com registros em praticamente todo o território brasileiro, além de outras regiões da América do Sul e sul do México. Sua ocorrência acompanha a presença de abelhas hospedeiras, podendo surgir tanto em áreas agrícolas quanto em pastagens naturais.

Na maioria das situações, o produtor percebe o inseto apenas por acaso, durante manejo rotineiro, inspeções ou após ocorrência clínica no rebanho.

O besouro sobre plantas forrageiras, podendo ser ingerido acidentalmente durante o pastejo
O besouro sobre plantas forrageiras, podendo
ser ingerido acidentalmente durante o pastejo

Procedimento recomendado ao encontrar o inseto

A orientação técnica não recomenda o extermínio indiscriminado, mas sim manejo seguro.

Conduta correta:

  • evitar contato direto
  • utilizar luvas, pinça ou recipiente rígido
  • remover sem esmagar
  • soltar em área de vegetação distante da circulação

O contato cutâneo pode causar dermatite química em humanos. Apesar do risco sanitário, o inseto possui função ecológica e participa do equilíbrio da cadeia alimentar.

Biosseguridade e prevenção

O retorno do “arrebenta-boi” reforça um princípio importante da pecuária moderna: ameaças sanitárias nem sempre são infecciosas — podem ser ambientais e biológicas.

Insetos tóxicos raramente entram nos protocolos sanitários de rotina, mas tornam-se críticos em sistemas de pastejo direto. A prevenção baseia-se principalmente em observação e capacitação da equipe.

Medidas preventivas:

  • monitoramento visual das pastagens
  • identificação de espécies incomuns
  • orientação de funcionários
  • comunicação imediata ao responsável técnico

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