Araras-canindés voltam à natureza no PARNA Tijuca

A reintrodução da arara-canindé (Ara ararauna) no Parque Nacional da Tijuca representa um marco relevante para a conservação da biodiversidade na Mata Atlântica fluminense. Considerada extinta regionalmente no estado do Rio de Janeiro, a espécie voltou ao ambiente natural por meio de uma ação coordenada da organização Refauna, com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. A soltura inicial, realizada em janeiro, contemplou três fêmeas, simbolizando o início de um programa estruturado de reintrodução.

A iniciativa integra uma abordagem moderna de conservação, baseada na restauração de processos ecológicos por meio da reintrodução de espécies-chave, fundamentais para a manutenção da dinâmica florestal. A escolha da arara-canindé se justifica por seu papel como dispersora de sementes, contribuindo diretamente para a regeneração da vegetação nativa e para o equilíbrio dos ecossistemas.

Oriundas de um centro de reabilitação localizado no interior de São Paulo, as aves passaram por criterioso processo de seleção comportamental, priorizando indivíduos com baixo grau de domesticação e maior capacidade de adaptação ao ambiente natural. Esse critério é essencial para aumentar as taxas de sobrevivência e sucesso reprodutivo após a soltura.

As araras retornando ao PARNA Tijuca - Foto: Flavia Zagury/Refauna
As araras retornando ao PARNA Tijuca – Foto: Flavia Zagury/Refauna
Técnicos do Refauna com os indivíduos da espécie chegam à unidade de conservação em junho de 2025 para iniciar a aclimatação antes de serem liberadas na floresta
Técnicos do Refauna com os indivíduos da espécie chegam
à unidade de conservação em junho de 2025 para iniciar
a aclimatação antes de serem liberadas na floresta

Manejo técnico e protocolos de aclimatação

O processo de reintrodução envolve protocolos técnicos rigorosos, com destaque para a fase de aclimatação realizada no interior do parque. As araras permaneceram por meses em viveiros estruturados, onde foram submetidas a treinamento de voo, condicionamento físico e adaptação alimentar, simulando as condições que encontrariam em vida livre. Esse período é determinante para o desenvolvimento da musculatura e para o aprendizado de comportamentos essenciais à sobrevivência.

Durante a aclimatação, a alimentação foi gradualmente ajustada, substituindo dietas de cativeiro por frutos nativos da Mata Atlântica, como a jabuticaba. A estratégia incluiu o uso de plataformas suspensas, reduzindo a associação entre alimento e presença humana, fator crítico para evitar comportamentos de risco após a soltura. Paralelamente, foram implementadas ações de manejo comportamental para desestimular a aproximação com pessoas e incentivar comportamentos naturais de forrageamento.

O monitoramento pós-soltura é contínuo e envolve o uso de anilhas, microchips e dispositivos de rastreamento, permitindo intervenções quando necessário. Em fases iniciais, a recaptura pode ser adotada como ferramenta de manejo adaptativo, especialmente em situações de risco ou dificuldade de adaptação. A suplementação alimentar também é mantida de forma estratégica, garantindo suporte até que os indivíduos alcancem plena autonomia.

Essa foi a primeira e, até agora, a única soltura dessa espécie de ave no Rio de Janeiro - Foto: Alana Gandra/Agência Brasil
Essa foi a primeira e, até agora, a única soltura dessa espécie
de ave no Rio de Janeiro – Foto: Alana Gandra/Agência Brasil
A arara-canindé Fernanda, em homenagem à atriz Fernanda Torrres, em seu primeiro voo livre - Foto: Marcus Carmo/PNT
A arara-canindé Fernanda, em homenagem à atriz Fernanda
Torrres, em seu primeiro voo livre – Foto: Marcus Carmo/PNT
Esta é uma das aves mais emblemáticas do Brasil, predonimante nos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Esta é uma das aves mais emblemáticas do Brasil,
redonimante nos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Impacto ecológico, engajamento social e perspectivas

A reintrodução da arara-canindé está inserida em um contexto mais amplo de combate à defaunação, fenômeno caracterizado pela perda de espécies animais e pela consequente redução das funções ecológicas. Estudos indicam que cerca de 90% das espécies vegetais da Mata Atlântica dependem de animais para dispersão de sementes, evidenciando a importância da fauna para a resiliência dos ecossistemas.

O projeto também incorpora mecanismos de ciência cidadã, estimulando a participação da sociedade no monitoramento das aves. Ferramentas como o aplicativo SISS-Geo, desenvolvido pela Fundação Oswaldo Cruz, permitem o envio de registros georreferenciados, ampliando a base de dados e fortalecendo a gestão adaptativa do programa. Essa integração entre ciência e sociedade contribui para aumentar a eficiência do monitoramento e promover educação ambiental.

Com meta de reintroduzir 50 indivíduos ao longo de cinco anos, o projeto busca estabelecer uma população viável e autossustentável na região. A iniciativa reforça o papel do Parque Nacional da Tijuca como laboratório vivo de restauração ecológica e demonstra que a recomposição da fauna é elemento-chave para a sustentabilidade dos ecossistemas e para a manutenção dos serviços ambientais, com impactos diretos sobre a biodiversidade, o equilíbrio climático e a qualidade ambiental.

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